Almas dos Mortos Tremendo Debaixo das Águas?

Pelo texto de Jó 26:5, parece claro que temos uma alma que sai do corpo após a morte. É isso mesmo que o texto diz ou haveria alguma outra maneira de entendê-lo?

No original hebraico (já transliterado), o texto de Jó 26:5 está como segue:

HAREPHAÍM YECHÔLALU MITTACHATH MAYIM VESHOKNEHEM.

Sua tradução literal é: “Os refaim estremecem debaixo das águas com seus habitantes.”

Como se percebe, o problema está com o vocábulo harepha’ím, palavra composta com o artigo HA (os) + o substantivo, no plural, REPHAIM (gigantes?).

Numa consulta aos dicionários hebraicos sobre a palavra rephaim, vemos que esta vem do ugarítico rp’i, podendo significar: (1) “mortos” (significado este contestado por estudiosos que o traduzem como “divindades”, “comunidade”, etc), e (2) “gigantes”, isto é, a palavra rephaim era aplicada aos povos pré-semíticos mais primitivos da Palestina, tidos como gigantes por causa da menção à estatura deles em Deuteronômio 2:10,11,20,21, onde é dito que eles “eram altos como os enaquins”. O interessante é que a Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento) também traduz o termo rephaim como “gigantes” (no grego, gigántom), em Josué 12:4; 13:12 e 1 Crônicas 20:4, 6 (cf. Harris, R. L, et. al. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, p. 1448-1449).

É verdade que, às vezes, o termo rephaim está associado em paralelismo com “morte” (sheol, no hebraico), como se pode ver em Provérbios 9:18 e Isaías 14:9. Porém, o contexto de Jó 25:6 não favorece a idéia de que rephaim signifique “mortos”; tampouco, “alma dos mortos”. O verso anterior (26:4) fala em “espírito”, mas a palavra hebraica é nishmat, cuja tradução é “fôlego de vida” (sinônima de ruach), como em Gênesis 2:7, ou “ser vivo”, como no Salmo 150:6 (cf. Schôkel, L. A. Dicionário Bíblico Hebraico-Português, p. 455).

Descartado o significado de “mortos”, ou pior ainda, “alma dos mortos”, para o vocábulo rephaim, em Jó 26:5, devemos entender essa palavra como significando “gigantes”, tal como fez a Septuaginta em várias passagens (como mencionadas acima). Esses gigantes, chamados rephaim, antigos habitantes da Palestina (cf. Gn 14:5; Dt 2:11; 3:11; Js 12:4; 13:12; l Cr 20:4), foram extintos por outros povos, incluindo os israelitas.

Porém, mesmo traduzindo-se rephaim por “gigantes”, em Jó 26:5, não podemos pensar que aqueles extintos gigantes estejam tremendo “debaixo das águas com seus habitantes”. Os gigantes que tremem debaixo das águas são os grandes seres que povoam as águas fluviais ou marítimas – ou seja, os grandes peixes dos rios e as baleias, tubarões e outros grandes seres do mar. Dessa maneira, vemos como o termo rephaim, gigantes, passou a representar qualquer ser gigantesco, como as baleias, por exemplo. Assim, em Jó 26:5, o vocábulo rephaim parece se referir aos grandes seres dos rios e do mar, pela razão de “águas” serem mencionadas três vezes no contexto: “… debaixo das águas com seus habitantes” (v. 5), “… prende as águas” (v. 8), e “superfície das águas” (v.10). Além disso, há uma menção explícita ao mar, em 26:12: “Com a Sua força fende o mar, e com o Seu entendimento abate o adversário [rahab, monstro mítico das profundezas do mar]”.

Por aquilo que vimos da análise textual e contextual de Jó 26:5, uma boa tradução para esse verso bíblico poderia ser: “Os gigantes estremecem debaixo das águas com seus habitantes” (entendendo-se “gigantes” como alusão aos grandes seres que povoam as águas). Assim o fez a Bíblia Sagrada, Edições Paulinas (de 1960), que traduziu Jó 26:5 como: “Eis que os gigantes gemem debaixo das águas, e os que habitam com eles.”

No capítulo 26, Jó afirma a soberania de Deus sobre coisas grandes ou poderosas, como os gigantescos seres das águas (v. 5), o além e o abismo (v. 6), o espaço sideral (v. 7), a atmosfera (vs. 8-11), e sobre o mar e os seres que nele habitam (v. 12). Sendo que Deus é soberano sobre as coisas grandes (e também sobre as pequenas), haveria algo difícil para Ele fazer em nosso benefício? Está enfrentando algo difícil em sua vida? Lembre-se de que há um ser grandioso, majestoso, que cuida das gigantescas constelações (Jó 38:31,32), mas também de um pequeno pardal quando este morre, e Se importa com um fio de cabelo que cai de nossa cabeça (Mt 10:29, 30). Já entregou a vida ao Soberano do Universo e aceitou Sua guia? Se já o fez, então está em excelentes e poderosas mãos!

Por Ozeas C. Moura, doutor em Teologia Bíblica e professor de Teologia no Salt – Unasp, Campus Engenheiro Coelho, SP. Publicado na RA de Set/2010.

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