A destruição de Sodoma

Baseado em Gênesis 19.

Como a mais bela entre as cidades do vale do Jordão, achava-se Sodoma, situada em uma planície que era “como o jardim do Senhor” (Gênesis 13:10), pela sua fertilidade e beleza. Ali florescia a luxuriante vegetação dos trópicos. Ali era a terra da palmeira, da oliveira e da videira, e flores derramavam o seu perfume através de todo o ano. Ricas plantações revestiam os campos, e rebanhos e gado cobriam as colinas circunvizinhas. A arte e o comércio contribuíam para enriquecer a orgulhosa cidade da planície. Os tesouros do Oriente adornavam seus palácios, e as caravanas do deserto traziam seus abastecimentos de coisas preciosas para lhe suprir os mercados. Com pouca preocupação ou trabalho, toda a necessidade da vida podia ser suprida, e o ano inteiro parecia um ciclo de festas.

A profusão que reinava por toda parte deu origem ao luxo e ao orgulho. A ociosidade e a riqueza tornam endurecido o coração que nunca foi oprimido pela necessidade ou sobrecarregado de tristeza. O amor ao prazer era favorecido pela riqueza e lazer, e o povo entregou-se à satisfação sensual. “Eis que”, diz o profeta, “esta foi a maldade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão, e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca esforçou a mão do pobre e do necessitado. E se ensoberbeceram, e fizeram abominação diante de Mim; pelo que as tirei dali, vendo Eu isto”. Ezequiel 16:49, 50. Nada há mais desejável entre os homens do que riqueza e lazer, e contudo estas coisas dão origem aos pecados que acarretaram destruição às cidades da planície. Sua vida inútil, ociosa, tornou-os presa das tentações de Satanás, e desfiguraram a imagem de Deus, tornando-se satânicos em vez de divinos. A ociosidade é a maior maldição que pode recair ao homem; pois que o vício e o crime seguem em seu cortejo. Enfraquece o espírito, perverte o entendimento, e avilta a alma. Satanás fica de emboscada, pronto para destruir aqueles que estão desprevenidos, cujo tempo vago lhe dá oportunidade para insinuar-se sob alguns disfarces atraentes. Ele nunca é mais bem-sucedido do que quando vem aos homens em suas horas ociosas.

Em Sodoma havia regozijo e orgia, banquetes e bebedice. As mais vis e brutais paixões não eram refreadas. O povo desafiava abertamente a Deus e à Sua lei, e deleitava-se em ações de violência. Posto que tivessem diante de si o exemplo do mundo antediluviano, e soubessem como a ira de Deus se manifestara em sua destruição, seguiam contudo o mesmo caminho de impiedade.

Por ocasião da mudança de Ló para Sodoma, a corrupção não havia ainda se tornado geral, e Deus em Sua misericórdia permitiu que raios de luz resplandecessem por entre as trevas morais. Quando Abraão libertou dos elamitas os cativos, foi chamada a atenção do povo para a verdadeira fé. Abraão não era um estranho para o povo de Sodoma, e seu culto ao Deus invisível fora assunto para ridículo entre eles; mas sua vitória sobre forças grandemente superiores e sua disposição magnânima dos prisioneiros e despojos, provocaram espanto e admiração. Enquanto sua habilidade e bravura eram exaltadas, ninguém podia evitar a convicção de que o fizera vencedor um poder divino. E seu espírito nobre e abnegado, tão estranho aos habitantes de Sodoma, que só procuravam o proveito próprio, foi outra prova da superioridade da religião que ele honrara pela sua coragem e fidelidade.

Melquisedeque, conferindo a bênção a Abraão, reconhecera Jeová como a fonte de sua força e autor da vitória: “Bendito seja Abraão do Deus altíssimo, o Possuidor dos céus e da Terra; e bendito seja o Deus altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos”. Gênesis 14:19, 20. Deus estava a falar àquele povo pela Sua providência, mas o último raio de luz foi rejeitado, assim como foram todos os anteriores.

E agora a última noite de Sodoma estava a aproximar-se. Já as nuvens da vingança lançavam as sombras sobre a cidade condenada. Os homens, porém, não o perceberam. Enquanto anjos se aproximavam em sua missão de destruição, homens sonhavam com prosperidade e prazer. O último dia foi como todos os outros que tinham vindo e ido. A tarde caía sobre cenas de encanto e segurança. Uma paisagem de beleza sem-par era banhada pelos raios do Sol poente. A frescura da tarde chamara para fora de casa os habitantes da cidade, e as multidões em busca de divertimentos passavam de um lado para outro, preocupadas com os prazeres daquela hora.

Ao entardecer, dois estrangeiros se aproximaram da porta da cidade. Eram aparentemente viajantes, vindo para pernoitarem. Ninguém poderia discernir naqueles humildes viajantes os poderosos arautos do juízo divino, e mal sonhava a multidão alegre e descuidada que, em seu tratamento a esses mensageiros celestiais naquela mesma noite, atingiriam o auge do crime que condenou sua orgulhosa cidade. Houve, porém, um homem que manifestou amável atenção para com os estranhos, e os convidou para sua casa. Ló não sabia do verdadeiro caráter deles, mas a polidez e a hospitalidade eram nele habituais; faziam parte de sua religião — lições que ele havia aprendido pelo exemplo de Abraão. Se ele não houvesse cultivado o espírito de cortesia, poderia ter sido deixado a perecer com o resto de Sodoma. Muita casa, fechando suas portas a um estranho, excluiu o mensageiro de Deus, que teria trazido bênção, esperança e paz.

Cada ato da vida, por pequeno que seja, tem sua influência para o bem ou para o mal. A fidelidade ou a negligência naquilo que aparentemente são os menores deveres, pode abrir a porta para as mais ricas bênçãos da vida ou para as suas maiores calamidades. São as pequenas coisas que provam o caráter. São os atos despretensiosos de abnegação diária, praticados com um coração prazenteiro e voluntário, que Deus aprova. Não devemos viver para nós mesmos, mas para outrem. E é apenas pelo esquecimento de nós mesmos, alimentando um espírito amorável, auxiliador, que podemos tornar nossa vida uma bênção. As pequenas atenções, as cortesias pequenas e singelas, muito representam no perfazer o total da felicidade da vida; e a negligência destas coisas constitui não pequena participação na desgraça humana.

Vendo o desacato a que os estranhos estavam expostos em Sodoma, Ló tornou um de seus deveres guardá-los ao entrarem, oferecendo-lhes acolhimento em sua casa. Estava assentado à porta quando os viajantes se aproximavam, e, observando-os, levantou-se de seu lugar para os encontrar, e curvando-se polidamente disse: “Eis agora, meus senhores, entrai, peço-vos, em casa de vosso servo, e passai nela a noite”. Eles pareciam declinar de sua hospitalidade, dizendo: “Não, antes na rua passaremos a noite”. Gênesis 19:2. Seu objetivo nesta resposta foi duplo: provar a sinceridade de Ló, e também parecer ignorar o caráter dos homens de Sodoma, como se supusessem livre de perigo ficar na rua à noite. Sua resposta tornou Ló mais resolvido a não deixá-los à disposição da turba infame. Insistiu com o convite até que cederam, e o acompanharam para casa.

Ele esperava esconder sua intenção aos ociosos que estavam à porta, trazendo os estrangeiros a sua casa por um caminho indireto; mas a hesitação e demora deles, e o empenho persistente de Ló, fizeram com que fossem observados, e, à noite, antes que se acomodassem, uma multidão iníqua reuniu-se em redor da casa. Era um grupo imenso, jovens e velhos, igualmente inflamados pelas mais vis paixões. Os estranhos estiveram a fazer indagações quanto ao caráter da cidade, e Ló advertira-os a não se arriscarem a sair de suas portas naquela noite, quando as vaias e zombarias da turba eram ouvidas, reclamando que os homens lhes fossem trazidos para fora.

Sabendo que, sendo provocados à violência, poderiam facilmente penetrar em sua casa, Ló saiu para experimentar sobre eles o efeito da persuasão. “Meus irmãos”, disse ele, “rogo-vos que não façais mal”, empregando o termo “irmãos” no sentido de vizinhos, e esperando conciliá-los e envergonhá-los de seus maus intuitos . Mas suas palavras foram como gasolina sobre as chamas. A ira deles se tornou semelhante ao rugido da tempestade. Zombaram de Ló, como que fazendo-se juiz sobre eles, e ameaçaram tratá-lo pior do que se propuseram fazer para com os seus hóspedes. Ruíram sobre ele, e o teriam reduzido a pedaços, se não tivesse sido livrado pelos anjos de Deus. Os mensageiros celestiais “estenderam sua mão, e fizeram entrar a Ló consigo na casa, e fecharam a porta”. Gênesis 19:10. Os fatos que se seguiram, revelam o caráter dos hóspedes que ele acolhia. “Feriram de cegueira os varões que estavam à porta da casa, desde o menor até o maior, de maneira que se cansaram para achar a porta.” Se não tivessem sido visitados com dupla cegueira, entregando-se à dureza de coração, o toque de Deus contra eles tê-los-ia feito temer, e desistir de sua má obra. Aquela noite não se distinguiu por maiores pecados do que muitas outras anteriores; a misericórdia, porém, durante tanto tempo desprezada, cessara finalmente de pleitear. Os habitantes de Sodoma haviam passado os limites da paciência divina — “os limites ocultos entre a paciência de Deus e a Sua ira”. Os fogos de Sua vingança estavam prestes a acender-se no vale de Sidim.

Os anjos revelaram a Ló o objetivo de sua missão: “Nós vamos destruir este lugar, porque o seu clamor tem engrossado diante da face do Senhor, e o Senhor nos enviou a destruí-lo.” Os estranhos que Ló se esforçara por proteger, prometeram agora protegê-lo, e salvar também todos os membros de sua família que com ele fugissem da ímpia cidade. A turba cansara-se e se retirara, e Ló foi avisar seus filhos. Repetiu as palavras dos anjos: “Levantai-vos, saí deste lugar; porque o Senhor há de destruir a cidade.” Mas ele lhes pareceu como quem zombava. Riram-se daquilo que chamavam seus receios supersticiosos. Suas filhas eram influenciadas pelos maridos. Estavam muito bem ali onde se encontravam. Não podiam ver sinais de perigo. Tudo estava exatamente como havia sido. Possuíam muitos bens, e não podiam crer fosse possível que a bela Sodoma houvesse de ser destruída.

Ló voltou triste para casa, e referiu a história de seu insucesso. Então os anjos o mandaram levantar-se, e tomar a esposa e duas filhas que ainda estavam em casa, e deixar a cidade. Ló, porém, demorava-se. Se bem que diariamente angustiado ao ver cenas de violência, não tinha uma concepção verdadeira da iniqüidade aviltante e abominável praticada naquela vil cidade. Não se compenetrava da terrível necessidade de darem os juízos de Deus um paradeiro ao pecado. Alguns de seus filhos apegaram-se a Sodoma, e sua esposa recusou-se a partir sem eles. O pensamento de deixar aqueles a quem ele tinha como os mais caros na Terra, parecia ser mais do que poderia suportar. Era duro abandonar sua casa luxuosa, e toda a riqueza adquirida pelos trabalhos de sua vida inteira, a fim de sair como um errante destituído de bens. Pasmo pela tristeza, demorava-se, relutante em partir. Se não foram os anjos de Deus, todos teriam perecido na ruína de Sodoma. Os mensageiros celestiais tomaram pela mão a ele, sua esposa e filhas, e os levaram fora da cidade.

Ali os anjos os deixaram, e voltaram a Sodoma para cumprirem sua obra de destruição. Um outro — Aquele com quem Abraão estivera a pleitear — aproximou-Se de Ló. Em todas as cidades da planície, não se puderam achar nem mesmo dez pessoas justas; mas, em resposta à oração do patriarca, o único homem que temia a Deus foi arrancado à destruição. Foi dada esta ordem com surpreendente veemência: “Escapa-te por tua vida; não olhes para trás de ti, e não pares em toda esta campina; escapa lá para o monte, para que não pereças”. Gênesis 19:17. A hesitação e a demora seriam agora fatais. Lançar um olhar demorado à cidade amaldiçoada, deter-se por um instante, pela tristeza de deixar tão belo lar, ter-lhes-ia custado a vida. A tormenta do juízo divino estava apenas a esperar que estes pobres fugitivos pudessem escapulir.

Mas Ló, confuso e aterrorizado, alegava que não podia fazer conforme lhe era exigido, para que não acontecesse surpreendê-lo algum mal, e ele morresse. Morando naquela ímpia cidade, em meio de incredulidade, sua fé se enfraquecera. O Príncipe do Céu estava a seu lado, contudo rogava ele pela sua vida como se Deus, que manifestara tal cuidado e amor para com ele, não mais o guardasse. Deveria ter-se confiado inteiramente ao Mensageiro divino, entregando sua vontade e sua vida nas mãos do Senhor, sem duvidar ou discutir. Mas, semelhante a tantos outros, esforçou-se por fazer planos por si: “Eis agora aquela cidade está perto, para fugir para lá, e é pequena; ora para ali me escaparei (não é pequena?), para que minha alma viva”. Gênesis 19:20. A cidade aqui mencionada era Bela, mais tarde chamada Zoar. Ficava apenas a poucos quilômetros de Sodoma e, como esta, era corrupta, e estava condenada à destruição. Mas Ló pediu que ela fosse poupada, insistindo que isto não era senão pequeno pedido; e seu desejo foi atendido. O Senhor assegurou-lhe: “Tenho-te aceitado também neste negócio, para não derribar esta cidade, de que falaste”. Gênesis 19:21. Oh, quão grande é a misericórdia de Deus para com Suas erradias criaturas!

De novo foi dada a ordem solene de apressar-se, pois a terrível tormenta demorar-se-ia apenas um pouco mais. Mas um dos fugitivos aventurou-se a lançar um olhar para trás, para a cidade condenada, e se tornou um monumento do juízo de Deus. Se o próprio Ló não houvesse manifestado hesitação em obedecer à advertência do anjo, antes tivesse ansiosamente fugido para as montanhas, sem uma palavra de insistência ou súplica, sua esposa teria também podido escapar. A influência de seu exemplo a teria salvo do pecado que selou a sua perdição. Mas a hesitação e demora dele fizeram com que ela considerasse levianamente a advertência divina. Ao mesmo tempo em que seu corpo estava sobre a planície, o coração apegava-se a Sodoma, e ela pereceu com Sodoma. Rebelara-se contra Deus porque Seus juízos envolviam na ruína as posses e os filhos. Posto que tão grandemente favorecida ao ser chamada da ímpia cidade, entendeu que era tratada severamente, porque a riqueza que tinha levado anos para acumular devia ser deixada para a destruição. Em vez de aceitar com gratidão o livramento, presunçosamente olhou para trás, desejando a vida daqueles que haviam rejeitado a advertência divina. Seu pecado mostrou ser ela indigna da vida, por cuja preservação tão pouca gratidão sentira.

Devemos estar apercebidos contra o tratar levianamente as providências graciosas de Deus para a nossa salvação. Há cristãos que dizem: “Não me incomodo com salvar-me, a menos que minha esposa e filhos se salvem comigo.” Acham que o Céu não seria Céu para eles, sem a presença dos que lhes são tão caros. Mas têm os que alimentam tais sentimentos uma concepção exata de sua relação para com Deus, em vista de Sua grande bondade e misericórdia para com eles? Esqueceram-se de que estão ligados, pelos mais fortes laços de amor, honra e lealdade, ao serviço de seu Criador e Redentor? Os convites de misericórdia são dirigidos a todos; e porque nossos amigos rejeitam o insistente amor do Salvador, desviar-nos-emos também? A redenção da alma é preciosa. Cristo pagou um preço infinito pela nossa salvação, e ninguém que aprecie o valor deste grande sacrifício, ou o preço de uma alma, desprezará a misericórdia de Deus, que se lhe oferece, porque outros preferem fazê-lo. O próprio fato de que outros ignoram Suas justas reivindicações, deve despertar-nos a maior diligência, para que nós mesmos possamos honrar a Deus e levar a todos, a quem podemos influenciar, a aceitar o Seu amor.

“Saía o Sol sobre a terra, quando Ló entrou em Zoar”. Gênesis 19:23. Os brilhantes raios da manhã pareciam falar apenas de prosperidade e paz, às cidades da planície. Começou a agitação da vida ativa nas ruas; homens seguiam seus vários caminhos, preocupados com os negócios ou os prazeres do dia. Os genros de Ló estavam divertindo-se à custa dos temores e advertências do velho, já de espírito enfraquecido. Súbita e inesperadamente, como se fora o estrondo de um trovão provindo de um céu sem nuvens, desencadeou a tempestade. O Senhor fez chover do Céu enxofre e fogo sobre as cidades e a fértil planície; seus palácios e templos, custosas habitações, jardins e vinhedos, e as multidões divertidas, à caça de prazeres, as quais ainda na noite anterior insultaram os mensageiros do Céu — tudo foi consumido. O fumo da conflagração subia como o fumo de uma grande fornalha. E o belo vale de Sidim tornou-se uma desolação, um lugar que nunca mais seria construído ou habitado — testemunha a todas as gerações da certeza dos juízos de Deus sobre os transgressores.

As chamas que consumiram as cidades da planície derramaram sua luz de advertência, até mesmo aos nossos tempos. É-nos ensinada a lição terrível e solene de que, ao mesmo tempo em que a misericórdia de Deus suporta longamente o transgressor, há um limite além do qual os homens não podem ir no pecado. Quando é atingido aquele limite, os oferecimentos de misericórdia são retirados, e inicia-se o ministério do juízo.

O Redentor do mundo declara que há maiores pecados do que aqueles pelos quais Sodoma e Gomorra foram destruídas. Aqueles que ouvem o convite do evangelho chamando os pecadores ao arrependimento, e não o atendem, são mais culpados perante Deus do que o foram os moradores do vale de Sidim. E ainda maior pecado é o daqueles que professam conhecer a Deus e guardar os Seus mandamentos, e contudo negam a Cristo em seu caráter e vida diária. À luz da advertência do Salvador, a sorte de Sodoma é um aviso solene, não simplesmente para os que são culpados de pecado declarado, mas a todos que têm em pouca conta a luz e privilégios enviados pelo Céu.

Disse a Testemunha Verdadeira à igreja de Éfeso: “Tenho, porém, contra ti que deixaste a tua primeira caridade. Lembra-te, pois, donde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres”. Apocalipse 2:4, 5. O Salvador aguarda a resposta a Seus oferecimentos de amor e perdão, com uma compaixão mais terna do que aquela que move o coração de um pai terrestre para perdoar um filho transviado e sofredor. Ele clama aos errantes: “Tornai-vos para Mim, e Eu tornarei para vós”. Malaquias 3:7. Mas se aquele que vagueia, recusa persistentemente atender à voz que o chama com amor compassivo e terno, será finalmente deixado em trevas. O coração que durante muito tempo desdenhou a misericórdia de Deus, torna-se endurecido no pecado, e não mais é susceptível à influência da graça de Deus. Terrível será a sorte da alma da qual o Salvador, pleiteando por sua defesa, declarará finalmente: “Está entregue aos ídolos; deixa-o”. Oséias 4:17. Haverá menos rigor no dia do Juízo para as cidades da planície do que para aqueles que conheceram o amor de Cristo, e contudo se desviaram à escolha dos prazeres de um mundo de pecado.

Vós que estais a desdenhar os oferecimentos da misericórdia, pensai nos inúmeros registros que contra vós se acumulam nos livros do Céu: pois há um relatório feito das impiedades das nações, das famílias, dos indivíduos. Deus pode suportar muito enquanto a conta prossegue; e convites ao arrependimento e oferecimentos de perdão podem ser feitos; contudo, tempo virá em que a conta se completará, em que se fez a decisão da alma, em que se fixou o destino do homem pela sua própria escolha. Dar-se-á então o sinal para ser executado o juízo.

Há motivo para alarmar-nos na condição do mundo religioso hoje. Tem-se tido em pouca conta a misericórdia de Deus. A multidão anula a lei de Jeová, “ensinando doutrinas que são preceitos de homens”. Mateus 15:9. A incredulidade prevalece em muitas das igrejas de nosso país; não a incredulidade em seu sentido mais amplo, como franca negação da Bíblia, mas uma incredulidade vestida no traje do cristianismo, ao mesmo tempo em que se acha a solapar a fé na Bíblia como revelação de Deus. A devoção fervorosa e a piedade vital deram lugar ao formalismo oco. Como conseqüência prevalecem a apostasia e o sensualismo. Cristo declarou: “Como também da mesma maneira aconteceu nos dias de Ló: […] assim será no dia em que o Filho do homem Se há de manifestar”. Lucas 17:28-30. O registro diário dos acontecimentos que se passam, testifica do cumprimento de Suas palavras. O mundo rapidamente está a amadurecer para a destruição. Logo deverão derramar-se os juízos de Deus, e pecado e pecadores ser consumidos.

Disse o Salvador: “Olhai por vós, não aconteça que os vossos corações se carreguem de glutonaria, de embriaguez, e dos cuidados da vida, e venha sobre vós de improviso aquele dia. Porque virá como um laço sobre todos os que habitam na face de toda a Terra” — todos cujos interesses estão centralizados neste mundo. “Vigiai pois em todo o tempo, orando para que sejais havidos por dignos de evitar todas estas coisas que hão de acontecer, e de estar em pé diante do Filho do homem”. Lucas 21:34-36.

Antes da destruição de Sodoma, Deus enviou uma mensagem a Ló: “Escapa-te por tua vida; não olhes para trás de ti, e não pares em toda esta campina; escapa lá para o monte, para que não pereças”. Gênesis 19:17. A mesma voz de advertência foi ouvida pelos discípulos de Cristo, antes da destruição de Jerusalém: “Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação. Então, os que estiverem na Judéia, fujam para os montes”. Lucas 21:20, 21. Não deviam demorar-se para conseguir coisa alguma de suas posses, mas antes aproveitar-se da oportunidade para fugir.

Houve uma saída, uma decidida separação dos ímpios, uma escapada para salvar a vida. Assim foi nos dias de Noé; assim nos dias de Ló; assim aconteceu com os discípulos antes da destruição de Jerusalém; e assim será nos últimos dias. De novo se ouve a voz de Deus em uma mensagem de advertência, mandando Seu povo separar-se da iniqüidade que prevalece.

O estado de corrupção e apostasia que nos últimos dias existiria no mundo religioso, foi apresentado ao profeta João, na visão de Babilônia, “a grande cidade que reina sobre os reis da Terra”. Apocalipse 17:18. Antes de sua destruição será feito do Céu o convite: “Sai dela, povo Meu, para que não sejas participante dos seus pecados, e para que não incorras nas suas pragas”. Apocalipse 18:4. Como nos dias de Noé e Ló, tem de haver uma separação distinta do pecado e pecadores. Não pode haver transigência entre Deus e o mundo, nem um retrocesso para se conseguirem tesouros terrestres. “Não podeis servir a Deus e a Mamom”. Mateus 6:24.

Como os habitantes do vale de Sidim, o povo está sonhando com prosperidade e paz. “Escapa-te por tua vida” — é a advertência dos anjos de Deus; mas outras vozes são ouvidas a dizer: “Não te deixes excitar; não há motivos para sustos”. As multidões clamam: “Paz e segurança” (1 Timóteo 5:3), quando o Céu declara que repentina destruição está para sobrevir ao transgressor. Na noite prévia à sua destruição entregaram-se as cidades da planície aos prazeres turbulentos, e caçoaram dos temores e avisos do mensageiro de Deus; mas esses escarnecedores pereceram nas chamas; naquela mesma noite a porta da misericórdia fechou-se para sempre aos ímpios e descuidados habitantes de Sodoma. Deus não será sempre zombado; não será por muito tempo menosprezado. “Eis que o dia do Senhor vem, horrendo, com furor e ira ardente, para pôr a Terra em assolação, e destruir os pecadores dela”. Isaías 13:9. A maioria no mundo rejeitará a misericórdia de Deus, e submergir-se-á na repentina e irreparável ruína. Mas aquele que atender à advertência, habitará “no esconderijo do Altíssimo”, e “à sombra do Onipotente descansará”. “Sua verdade” será seu “escudo e broquel”. Para ele é a promessa: “Dar-lhe-ei abundância de dias, e lhe mostrarei a Minha salvação”. Salmos 91:1, 4, 16.

Apenas pouco tempo habitou Ló em Zoar. A iniqüidade prevalecia ali como em Sodoma, e ele temeu ficar pelo receio de ser destruída a cidade. Não muito tempo depois Zoar foi consumida, conforme fora o intuito de Deus. Ló encaminhou-se para as montanhas e habitou em uma caverna, despojado de tudo aquilo por cujo amor ousara sujeitar sua família às influências de uma cidade ímpia. Mas a maldição de Sodoma seguiu-o mesmo ali. A conduta pecaminosa de suas filhas foi o resultado das más associações naquele vil lugar. A corrupção moral do mesmo se entretecera de tal maneira com o caráter delas que não podiam discernir entre o bem e o mal. A única posteridade de Ló, os moabitas e amonitas, foram tribos vis, idólatras, rebeldes a Deus, e inimigos de Seu povo.

Em grande contraste com a vida de Abraão estava a de Ló! Já tinham sido companheiros, adorando no mesmo altar, morando ao lado um do outro em suas tendas de peregrinos; mas quão diversamente diferençados agora! Ló escolhera Sodoma para seu prazer e proveito. Deixando o altar de Abraão e seu sacrifício diário ao Deus vivo, permitira a seus filhos misturar-se com um povo corrupto e idólatra; retivera contudo em seu coração o temor de Deus, pois declaram as Escrituras ter sido ele um homem “justo”; sua alma justa enfadava-se com a conversação vil que diariamente vinha a seus ouvidos, e ele era impotente para impedir a violência e o crime. Foi finalmente salvo como “um tição tirado do fogo” (Zacarias 3:2), despojado contudo de suas posses, privado da esposa e filhos, habitando em cavernas, como os animais selvagens, coberto de infâmia em sua velhice; e deu ao mundo, não uma raça de homens justos, mas duas nações idólatras, em inimizade com Deus e a guerrear contra o Seu povo, até que, enchendo-se sua taça de iniqüidade, foram destinadas à destruição. Quão terríveis foram os resultados que se seguiram a um passo desacertado!

Diz o sábio: “Não te canses para enriqueceres; dá de mão à tua própria sabedoria”. Provérbios 23:4. “O que se dá à cobiça perturba a sua casa, mas o que aborrece as dádivas viverá”. Provérbios 15:27. E o apóstolo Paulo declara: “Os que querem ser ricos caem em tentação e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína”. 1 Timóteo 6:9.

Quando Ló entrou em Sodoma, inteiramente se propunha ele conservar-se livre da iniqüidade, e ordenar a sua casa depois dele. Mas, de maneira bem patente, fracassou. As influências corruptoras em redor dele tiveram efeito sobre sua fé, e a relação de seus filhos para com os habitantes de Sodoma ligaram até certo ponto seus interesses com os deles. O resultado está diante de nós.

Muitos ainda estão cometendo erro semelhante. Escolhendo um lar, olham mais para as vantagens temporais que podem adquirir do que para as influências morais e sociais que cercarão a eles e suas famílias. Escolhem um território belo e fértil, ou mudam-se para alguma cidade florescente, na esperança de conseguir maior prosperidade; mas seus filhos se acham rodeados de tentações, e muitas vezes formam camaradagens que são desfavoráveis ao desenvolvimento da piedade e à formação de um caráter reto. A atmosfera de moralidade frouxa, de incredulidade, de indiferença às coisas religiosas, tem uma tendência para contrariar a influência dos pais. Exemplos de rebelião contra a autoridade paternal, e divina, estão sempre diante dos jovens; muitos fazem amizades com ateus e incrédulos, e lançam sua sorte com os inimigos de Deus.

Ao escolhermos uma residência, Deus quer que consideremos antes de tudo as influências morais e religiosas que nos rodearão, a nós e a nossas famílias. Podemos achar-nos em situações difíceis, pois que muitos não podem ter o seu ambiente conforme quereriam; e, onde quer que o dever nos chame, Deus nos habilitará a permanecer incontaminados, se orarmos e vigiarmos, confiando na graça de Cristo. Mas não devemos expor-nos desnecessariamente a influências desfavoráveis à formação de caráter cristão. Quando voluntariamente nos colocamos em uma atmosfera de mundanismo e incredulidade, desagradamos a Deus, e de nossos lares repelimos os santos anjos.

Aqueles que procuram para seus filhos riquezas e honras mundanas, às expensas de seus interesses eternos, acharão no fim que estas vantagens são uma perda terrível. Semelhantes a Ló, muitos vêem seus filhos na perdição, e apenas conseguem salvar sua própria alma. Perde-se o trabalho de sua vida; esta é um triste malogro. Se tivessem exercido verdadeira sabedoria, seus filhos poderiam ter tido menos prosperidade mundana, mas ter-se-iam assegurado um título à herança imortal.

A herança que Deus prometeu a Seu povo não está neste mundo. Abraão não teve possessão na Terra, “nem ainda o espaço de um pé”. Atos dos Apóstolos 7:5. Ele possuía muitos recursos, e deles fazia uso para a glória de Deus e para o bem de seus semelhantes; mas não olhava para este mundo como sua pátria.

O Senhor o chamara para deixar seus patrícios idólatras, com a promessa da terra de Canaã em possessão eterna; todavia nem ele, nem seu filho, nem o filho de seu filho, a recebeu. Quando Abraão quis um lugar para sepultar seus mortos teve de comprá-lo aos cananeus. Sua única possessão na terra da promessa foi aquele túmulo cavado na pedra, na caverna de Macpela.

A palavra de Deus, porém, não havia falhado; tampouco teve ela o seu cumprimento final na ocupação de Canaã pelo povo judeu. “As promessas foram feitas a Abraão e à sua posteridade”. Gálatas 3:16. O próprio Abraão deveria participar da herança. O cumprimento da promessa de Deus pode parecer achar-se muito demorado, pois “um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2 Pedro 3:8); pode parecer tardar; mas no tempo adequado “certamente virá, não tardará”. Hebreus 2:3. A dádiva a Abraão e sua semente incluirá não simplesmente a região de Canaã, mas a Terra toda. Assim, diz o apóstolo: “A promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé”. Romanos 4:13. E a Bíblia claramente ensina que as promessas feitas a Abraão devem cumprir-se por meio de Cristo. Todos os que são de Cristo são “descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa” — herdeiros de uma “herança incorruptível, incontaminável, e que se não pode murchar” (Gálatas 3:19; 1 Pedro 1:4), a saber, a Terra livre da maldição do pecado. Pois “o reino, e o domínio, e a majestade dos reinos, debaixo de todo o céu, serão dados ao povo dos santos do Altíssimo” (Daniel 7:27); e “os mansos herdarão a Terra, e se deleitarão na abundância de paz”. Salmos 37:11.

Deus proporcionou a Abraão uma perspectiva desta herança imortal, e com esta esperança ele se contentou. “Pela fé habitou na terra da promessa, como em terra alheia, morando em cabanas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa. Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus”. Hebreus 11:9, 10.

A respeito da posteridade de Abraão está escrito: “Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas; mas, vendo-as de longe, e crendo-as e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na Terra”. Hebreus 11:13. Devemos morar neste mundo como peregrinos e estrangeiros se quisermos alcançar uma pátria “melhor, isto é, a celestial”. Hebreus 11:16. Aqueles que são filhos de Abraão estarão a procurar a cidade que ele estava, “da qual o artífice e construtor é Deus”.

Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, Capítulo 14.

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