Lei de Deus & Lei de Moisés – II

Acreditar que a palavra “lei” usada nas Escrituras Sagradas sempre se refere a todos os mandamentos, estatutos e juízos divinos sem distinção, é tratá-las como um amontoado de contradições; é afirmar que Paulo era instável em seus ensinos e que fazia acepção de pessoas quando Romanos 2:13 e Gálatas 2:16 (cf Romanos 3:20) são comparados. É obrigatoriamente assumir que os Dez Mandamentos foram abolidos na cruz do Calvário e assim, apoiar um dos maiores sofismas de Satanás contra eles (Apocalipse 12:17). Os versos erroneamente interpretados e mais utilizados para sustentar que todas as coisas vinculadas a palavra “lei” foram revogadas são:

“Porque Ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derribado a parede da separação que estava no meio, a inimizade, aboliu, na Sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em Si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade.” (Efésios 2:14-16)

“Tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz.” (Colossenses 2:14)

“Ora, visto que a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas, nunca jamais pode tornar perfeitos os ofertantes, com os mesmos sacrifícios que, ano após ano, perpetuamente, eles oferecem.” (Hebreus 10:1)

Lei dos Mandamentos na Forma de Ordenanças

O tema central da carta aos efésios é a unidade da igreja, que na época era formada por judeus e gentios. Esta unidade estava ameaçada pelas interpretações equivocadas da lei de Moisés (cf Marcos 7:7-9Tito 1:12-14), pela exigência feita aos gentios para que seguissem integralmente essa lei (cf Atos 15:1-5)(a) e, pelo comportamento exclusivista e hostil dos judeus (cf Gálatas 2:12). Esses fatores proporcionaram as desavenças e separação entre judeus e gentios, não a lei de Moisés. Ela não foi estabelecida por Deus para que provocasse essa desunião(b). Ao contrário, embora essa lei possua regimentos restritos a Israel, ela foi elaborada para beneficiar a todos os povos.1

As mudanças(c) no sistema sacerdotal orientado pela lei não foram compreendidas de imediato após a morte de Cristo, isso ocorreu gradativamente e com fortes conflitos ideológicos. Quase todas as desavenças que desencadearam a divisão (“parede da separação”) entre judeus e gentios originavam-se das questões cerimoniais da lei de Moisés. E Cristo destruiu essa “parede” ao findar em Si mesmo as regras cerimoniais (lei dos mandamentos na forma de ordenanças) que simbolizavam a Ele e Seu sacrifício. Essa é a questão tratada em Efésios 2:14-16. Destacando que as cerimônias foram cessadas devido ao cumprimento de suas funções e não por causa da turbulência entre judeus e gentios. A destruição da “parede de separação” foi um benefício adicional, uma consequência da cruz.

A palavra “ordenança” usada em Efésios 2:15 provém do grego “dogma” e significa: doutrina; regulamento; ordem civil ou cerimonial; requerimento da lei de Moisés(d). Essas definições reforçam o entendimento de que não houve revogação integral da lei mosaica, mas, de sua parte cerimonial. Muitos ensinos trazidos nela são indispensáveis, sobretudo os Dez Mandamentos transcritos das tábuas de pedra(e). Adiante alguns comentários que seguem estes ensinos bíblico:

John Calvin, considerado o personagem mais importante da segunda geração da Reforma Protestante, afirma:

“O que havia sido metaforicamente compreendido pela palavra ‘parede’ é agora mais claramente expresso. As cerimônias, pelas quais a divergência foi mencionada, foram abolidas por meio de Cristo (…). Quando uma obrigação é revogada, a escrita é destruída; uma metáfora que Paulo utiliza, neste assunto, em outra epístola (Colossenses 2:14). (…) Esta é a habitual frase de Paulo para descrever a lei cerimonial, a qual o Senhor não ordenou aos judeus meramente como uma simples conduta de vida, pois ligava-os a vários estatutos. É evidente, também, que Paulo está tratando aqui exclusivamente da lei cerimonial, visto que a lei moral não é um muro de divisão que nos separa dos judeus, mas estabelece instruções nas quais os judeus não eram menos interessados em relação a nós mesmos.”2

John Wesley, fundador da Igreja Metodista, declara:

“Tendo abolido pelo Seu sofrimento na carne, a causa da inimizade entre judeus e gentios, como a lei de mandamentos cerimoniais e todos os decretos dela. Com isso oferece misericórdia a todos; ver Colossenses 2:14.”3

Adam Clarke, teólogo metodista, esclarece:

“A inimizade de que fala o apóstolo era recíproca entre judeus e gentios. O primeiro detestava os gentios, e dificilmente admitia classificá-los de homens; e o segundo tinha o maior desprezo pelos judeus por causa da peculiaridade de seus ritos e cerimônias religiosas, que diferenciavam de todas as demais nações da Terra.”4

Albert Barnes, escritor e ministro presbiteriano, sustenta:

“(…) A ideia é, que a lei cerimonial dos judeus, que eles tanto orgulhavam-se, foi a causa da hostilidade existente entre eles. (…) Quando Cristo veio e aboliu através de Sua morte a peculiar lei cerimonial deles, naturalmente que a causa desse afastamento cessou. (…) Isto não se refere à lei moral, que não era a causa da separação, e que não foi abolida pela morte de Cristo, mas às leis que determinam sacrifícios, festivais, jejuns e etc.; que constituem as particularidades do sistema judaico. (…) A palavra ‘ordenança’ significa: decreto, edito, regra (Lucas 2:1Atos 16:4Atos 17:7;Colossenses 2:14).”5

John MacArthur, escritor e pastor batista, assevera:

“(…) Agora, qual foi o maior obstáculo, a maior e genuína barreira entre um judeu e um gentio? O que era ela? Basicamente, a lei cerimonial, não foi? No geral, as questões judaicas. O conjunto cerimonial: festa religiosa, jejum, vestimenta, comida, circuncisão; todas as coisas que tinham. (…) ele [Paulo] não está falando sobre a lei moral. Permita-me antecipar isto. Deus tem uma lei moral, e a lei moral de Deus nunca muda. Nunca. Ela jamais mudou. A lei moral de Deus não foi abolida.Romanos 1 e 2 diz que ela está escrita no coração de cada homem. A lei moral de Deus foi formalizada nos Dez Mandamentos em Êxodo 20. A lei moral de Deus está resumida em Mateus 22, onde há um grande mandamento.”6

Geneva Bible(f), primeira tradução da Bíblia em inglês baseada diretamente das fontes originais hebraica e grega, traz em suas notas de rodapé o seguinte comentário:

“Cristo ofereceu em Seu próprio corpo o sacrifício definitivo, do qual os sacrifícios do templo eram apenas sinal [simbolismo]. As leis cerimoniais do Antigo Testamento que separavam judeus dos gentios não têm mais razão de ser após o seu cumprimento em Cristo.”7

Escrito de Dívida

A expressão “escrito de dívida” de Colossenses 2:14 é traduzida do grego “cheirographon“, e significa: manuscrito (formalmente estabelecido); nota manuscrita; nota promissória; dívida a ser restituída(g). “Escrito de dívida” não é sinônimo de lei. A palavra “lei” nem ao menos é usada na carta aos colossenses. Uma lei contém princípios e regras para direcionar o proceder individual e coletivo, e não para ser um conjunto de penalidades. As punições são as consequências da violação da lei e servem para auxiliar na sua integridade e respeito. A dívida mencionada em Colossenses 2:14 consistia, existia, subsistia em decorrência das transgressões cometidas contra as ordenanças (“dogma“) da lei. Por isso a afirmativa: “escrito de dívida, que constava de ordenanças”.

Certamente que houve preceitos cerimoniais da lei de Moisés que foram revogados devido ao cumprimento de seus propósitos, e Paulo menciona isso em Efésios 2:14-16. Contudo, Colossenses 2:13-14 volve-se especificamente sobre o cancelamento do débito ou “escrito de dívida” que foi gerado pela violação da lei. Pois, assim como ela prescreve bênçãos aos que lhe obedecem, ela também determina maldições e penalidades aos que se desviam de suas orientações.8 E existia uma dívida a ser paga por aqueles que a transgrediram; porém, essa dívida foi quitada (cancelada) pelo sacrifício de Cristo.

Embora a cruz do Calvário seja o ponto de referência desses versos, há um contraste entre eles, pois existe diferença entre: revogar algo após a sua função ter sido concluída (como ocorreu com as ordenanças cerimoniais da lei, Efésios 2:15), e, revogar algo motivado pelo perdão, pela misericórdia (como ocorreu com a “dívida” causada pela transgressão da lei, Colossenses 2:14). As regras cerimoniais da lei de Moisés não foram anuladas para que a punição do pecador fosse cancelada, não existe este ensino nas Escrituras. Perdão se obtém pelo arrependimento e fé em Cristo (II Coríntios 7:10Salmos 32:1-5)(h); unicamente por intermédio dEle, Deus elimina e esquece a pendência, a dívida, a punição cobrada pela lei.9

Outra interpretação atribuída a Colossenses 2:14 diz que o “escrito de dívida” refere-se aos preceitos cerimoniais da lei mosaica, e entre os adeptos deste posicionamento estão: Adam Clarke,10 Albert Barnes,11 John Calvin,12 John Gill13 e Matthew Henry.14

Sombras dos Bens Vindouros

A lei de Moisés possui normas cerimoniais que orientavam os simbolismos, as prefigurações de Jesus Cristo e Seu sacrifício; tratavam das questões litúrgicas do santuário terrestre, tais como: ofertas, holocaustos, abluções, festividades e etc. Essas cerimônias são chamadas por Paulo de “sombra dos bens vindouros” ou “sombra dos benefícios que hão de vir“.

A lei mosaica não é constituída integralmente de preceitos cerimoniais(i)Hebreus 10:1 diz que essa lei tem, e não que ela é a “sombra dos bens vindouros”. A flexão verbal “tem” origina-se do verbo grego “echo“, e significa: possuir; conter; incluir; manter; reter algo e utilizá-lo. Esse verso esclarece que a lei mosaica retém regras que instruíram os rituais cerimoniais que simbolizavam a crucifixão de Cristo em oferta pelos pecados da humanidade (Hebreus capítulo 9).


a. Acesse: O Concílio de Jerusalém

b. Além da inimizade entre judeus e gentios, pode-se adicionar a inimizade destes com Deus pois, ambos os grupos violaram o segundo fundamento da lei de Deus, “amor ao próximo” (Levítico 19:18 cf Mateus 22:39).

c. Hebreus capítulo 7.

d. STRONG, J. (1981). The Exhaustive Concordance of the Bible, ed. Macdonald Publishing Company; (referência n.º 1378).

e. Acesse: Lei de Deus & Lei de Moisés

f. Obra coordenada por Miles Coverdale (adepto do luteranismo e auxiliar de Willian Tyndale na tradução do Pentateuco) e John Knox (principal líder da reforma escocesa). A Geneva Bible (Bíblia de Genebra) foi a precursora da versão King James (1611).

g. STRONG, J. Obcit., (referência n.º 5498).

h. Acesse: Perdão e Salvação

i. Acesse: Lei Moral e Lei Cerimonial

1. Êxodo 19:5-6 cf Romanos 3:2; Levítico 24:22; Isaías 51:4; Isaías 56:6-7; Romanos 3:29-30; Gálatas 3:28-29.

2. CALVIN, JOHN. Commentary on Galatians and Ephesians, Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, p. 197-198.

3. WESLEY, J. Wesley’s Notes on the Bible, Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, p. 483.

4. CLARKE, A. (1838). The New Testament of our Lord and Saviour Jesus Christ, Philadelphia: Thomas Cowperthwait & Co., p. 229a.

5. BARNES, A. (1854). Notes, Explanatory and Pratical, on the Epistles of Paul to the Ephesians, Philippians, and Colossians, New York: Harper & Brothers Publishers, p. 53b.

6. John Fullerton MacArthur, The Unity of the Body, part 2, sermon n.º 1910 (March 12, 1978).

7Geneva Study Bible, commentary on Ephesians 2:14.

8. Deuteronômio capítulos 28, 29 e 30; Josué 1:1-8; Josué 8:34-35.

9. Jeremias 5:25; Jeremias 11:10; Isaías 43:25; Hebreus 8:8-12; Hebreus 10:16-18 cf Isaías 1:18-20.

10. CLARKE, A. Opcit., p. 270a.

11. BARNES, A. Obcit., p. 304a.

12. CALVIN, J. Commentary on Philippians, Colossians, and Thessalonians, Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, p. 164-165.

13. GILL, J. Exposition of the Bible: New Testament Commentary; (Colossians 2:14).

14. HENRY, M. The Concise Commentary on the Whole Bible, Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, p. 1934-1935.

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2 respostas para Lei de Deus & Lei de Moisés – II

  1. Sergio Ayalla disse:

    Deus chamou Moisés até o alto do monte Sinai e lá ditou para ele todas as regras que o povo devia seguir.
    Mas quanto à lei eterna, a lei moral, ele mesmo escreveu de próprio dedo e entregou a Moisés em duas pedras em formato de tábua. Uma com as regras de amar a Deus com todas as forças e com todo o entendimento e a outra, de amar ao próximo como a si mesmo.
    Moisés, em acesso de ira, jogou as pedras no chão e as esmiuçou. (isso representou que o ser humano pode quebrar, desobedecer essa lei).
    Deus chamou novamente Moisés e pediu que ele refizesse as pedras (tentativa de adquirir perdão com as próprias forças) mas foi Deus que novamente escr4eveu com o próprio dedo as regras da lei.
    Para que o povo entendesse que essa lei não se tratava de uma lei cerimonial, como as que foram ditadas, o próprio Deus veio até a terra e falou diretamente a seu povo.
    Essa é que é a diferença entre a lei para os Hebreus e a lei para todo o povo para toda a eternidade.
    A triste e catastrófica desobediência dos Cristãos ao quarto mandamento somente ocorrei a partir do século 3, quanto a igreja romana, que não era cristã, começou a se infiltrar entre os cristãos e sugerindo sorrateiramente que o povo guardasse o dia do deus deles (o Sol).
    Esse processo durou mais de 200 anos até que no ano 538 o poder político da época colocou as leis da igreja romana como regra única para todos os povos.
    A partir do século 15 várias pessoas (a maioria sacerdotes da igreja romana) começaram a contestar essa igreja e fizeram o que foi chamado de protestantismo.
    Tudo requereu muito estudo e até que se encontrasse novamente o caminho certo para Deus.
    Somente depois de 1850 (século 19) foi que alguns conseguiram resgatar a lei de Deus exatamente conforme era desde a criação do mundo.
    Não duvide nem misture as coisas de Deus.
    O que Deus ditou a Moisés foram as regras de convivência e os rituais que anunciavam a vinda do Salvador.
    O documento de Deus escreveu e que falou diretamente ao povo é a Lei de Deus, aquela mesma que mesmo que a terra passe, nem um til será alterado.

  2. Elisangela Santos disse:

    Se as pessoas se dedicassem a estudos minuciosos sobre este tema na Biblia, veriam que Satanas sempre procurou distorcer, destruir e principalmente desviar os crentes em Cristo, da Verdadeira Palavra de Deus. Por que sera que a igreja romana mudou o dia de guarda do sabado para o domingo? Seria tao simples saber a resposta se nao fosse a incredulidade das pessoas, se Deus santificou o sabado para que a humanidade o guardasse, claro que Satanas, o deus deste seculo, iria tentar modificar como ele tem conseguido, porque esta escrito: “…e deitou por terra a verdade; e o que fez prosperou.” Dn 8:12 ” Eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura, em lugar do Criador…” Rm 1:25. Que Deus ilumine os vossos caminhos. Amen.

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