A repetição da lei

Baseado em Deuteronômio 4-6; 28.

O Senhor anunciou a Moisés que o tempo designado para a posse de Canaã estava às portas; e, achando-se o idoso profeta em pé sobre as elevações sobranceiras ao rio Jordão e a Terra Prometida, contemplou com profundo interesse a herança de seu povo. Seria possível que a sentença pronunciada contra ele, por causa de seu pecado em Cades, pudesse ser revogada? Com grande ardor rogou: “Senhor Jeová! Já começaste a mostrar ao Teu servo a Tua grandeza, e a Tua forte mão; porque, que deus há nos céus e na Terra, que possa obrar segundo as Tuas obras, e segundo a Tua fortaleza? Rogo-Te que me deixes passar, para que veja esta boa terra que está de além do Jordão; esta boa montanha, e o Líbano”. Deuteronômio 3:24-27.

A resposta foi: “Basta; não Me fales mais nesse negócio. Sobe ao cume de Pisga, e levanta teus olhos ao ocidente e ao norte, e ao sul, e ao oriente, e vê com os teus olhos; porque não passarás este Jordão.”

Sem murmurar Moisés sujeitou-se ao decreto de Deus. E agora sua grande ansiedade era por Israel. Quem sentiria pelo bem-estar deles o interesse que ele sentira? De um coração repleto ele derramou esta oração: “O Senhor, Deus dos espíritos de toda a carne, ponha um homem sobre esta congregação, que saia diante deles, e que entre diante deles, e que os faça sair, e que os faça entrar; para que a congregação do Senhor não seja como ovelhas que não têm pastor”. Números 27:16-23.

O Senhor ouviu a oração de Seu servo; e a resposta veio: “Toma para ti a Josué, filho de Num, homem em quem há o Espírito, e põe a tua mão sobre ele. E apresenta-o perante Eleazar, o sacerdote, e perante toda a congregação, e dá-lhe mandamentos aos olhos deles; e põe sobre ele da tua glória, para que obedeça toda a congregação dos filhos de Israel.” Josué havia durante muito tempo auxiliado a Moisés; e, sendo homem de sabedoria, habilidade e fé, foi escolhido para suceder-lhe.

Mediante a imposição das mãos por Moisés, acompanhada de impressionante conjuração, Josué foi solenemente separado como chefe de Israel. Foi também admitido a participar desde então no governo. As palavras do Senhor concernentes a Josué vieram por meio de Moisés à congregação: “E se porá perante Eleazar, o sacerdote, o qual por ele consultará, segundo o juízo de Urim, perante o Senhor; conforme ao seu dito sairão, e conforme ao seu dito entrarão, ele e todos os filhos de Israel com ele, e toda a congregação”. Números 27:18, 19, 21.

Antes de deixar sua posição como líder visível de Israel, determinou-se a Moisés repetir-lhes a história de seu libertamento do Egito, e suas viagens no deserto, e também recapitular-lhes a lei proferida do Sinai. Quando a lei fora dada, apenas poucos da presente congregação tinham idade suficiente para compreenderem a terrível solenidade da ocasião. Como devessem logo passar o Jordão, e tomar posse da Terra Prometida, Deus queria apresentar-lhes as reivindicações de Sua lei, e estipular-lhes a obediência como condição para a prosperidade.

Moisés ficou em pé perante o povo para fazer suas últimas advertências e admoestações. Seu rosto foi iluminado de uma santa luz. Tinha os cabelos brancos pela idade; mas o corpo estava ereto, o rosto exprimia o vigor não abatido da saúde, e os olhos eram claros e fortes.

Era uma ocasião solene, e com profundo sentimento descreveu ele o amor e misericórdia do Protetor todo-poderoso: “Pergunta agora aos tempos passados, que te precederam desde o dia em que Deus criou o homem sobre a Terra, desde uma extremidade do céu até a outra, se sucedeu jamais coisa tão grande como esta, ou se se ouviu coisa como esta? Ou se algum povo ouviu a voz de Deus falando do meio do fogo, como tu a ouviste, ficando vivo? Ou se um deus intentou ir tomar para si um povo do meio de outro povo com provas, com sinais, e com milagres, e com peleja, e com mão forte, e com braço estendido, e com grandes espantos, conforme a tudo quanto o Senhor vosso Deus vos fez no Egito aos vossos olhos? A ti te foi mostrado para que soubesses que o Senhor é Deus; nenhum outro há senão Ele”. Deuteronômio 4:32-35.

“O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; mas porque o Senhor vos amava, e para guardar o juramento que jurara a vossos pais, o Senhor vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de faraó, rei do Egito. Saberás pois que o Senhor teu Deus é Deus, o Deus fiel que guarda o concerto e a misericórdia até mil gerações aos que O amam e guardam os Seus mandamentos”. Deuteronômio 7:7-9.

O povo de Israel estivera pronto para atribuir suas dificuldades a Moisés; mas agora foram removidas suas suspeitas de que ele era governado pelo orgulho, ambição ou egoísmo, e escutavam com confiança as suas palavras. Moisés expôs-lhes fielmente os seus erros e as transgressões de seus pais. Haviam eles muitas vezes se sentido impacientes e revoltados, por causa de sua longa peregrinação pelo deserto; mas o Senhor não era o culpado por esta demora em possuírem Canaã; Ele Se afligia mais do que eles por não poder levá-los à posse imediata da Terra Prometida, e mostrar assim perante todas as nações Seu grande poder no libertamento de Seu povo. Com sua falta de confiança em Deus, com seu orgulho e incredulidade, não estavam preparados para entrarem em Canaã. De nenhuma maneira representariam o povo cujo Deus era o Senhor; pois não tinham o Seu caráter de pureza, bondade e benevolência. Se seus pais houvessem se entregado pela fé à direção de Deus, sendo governados pelos Seus juízos, e andando em Suas ordenações, teriam desde muito tempo se estabelecido em Canaã, como um povo próspero, santo e feliz. Sua demora para entrarem na boa terra desonrou a Deus, e desmereceu a Sua glória à vista das nações ao redor.

Moisés, que compreendia o caráter e valor da lei de Deus, assegurou ao povo que nenhuma outra nação tinha preceitos tão sábios, justos e misericordiosos, como os que foram dados aos hebreus. “Vedes aqui”, disse ele, “vos tenho ensinado estatutos e juízos, como me mandou o Senhor meu Deus, para que assim façais no meio da terra a qual ides a herdar. Guardai-os pois, e fazei-os, porque esta será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos, que ouvirão todos estes estatutos, e dirão: Este grande povo só é gente sábia e entendida”. Deuteronômio 4:5, 6.

Moisés chamou sua atenção para o “dia em que estiveste perante o Senhor em Horebe”. Interpelou as hostes hebréias: “Que gente há tão grande, que tenha deuses tão chegados como o Senhor nosso Deus, todas as vezes que O chamamos? E que gente há tão grande, que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que hoje dou perante vós?” Hoje poderia repetir-se esta interpelação a Israel. As leis que Deus deu a Seu antigo povo eram mais sábias, melhores e mais humanas, do que as das nações mais civilizadas na Terra. As leis das nações trazem os indícios das debilidades e paixões do coração não renovado; mas a lei de Deus traz o cunho divino.

“O Senhor vos tomou, e vos tirou do forno de ferro do Egito”, declarou Moisés, “para que Lhe sejais por povo hereditário”. Deuteronômio 4:10, 7, 8, 20. A terra em que logo entrariam, e que deles deveria ser sob condição de obediência à lei de Deus, foi-lhes assim descrita, e, quanto não deveriam estas palavras ter comovido os corações de Israel, ao lembrarem-se eles de que aquele que tão resplendentemente descrevia as bênçãos da boa terra, fora, por causa do pecado deles, excluído da participação da herança de seu povo:

“O Senhor teu Deus te mete numa boa terra”; “não é como a terra do Egito, donde saístes, em que semeavas a tua semente, e a regavas com o teu pé, como a uma horta. Mas a terra que passais a possuir é terra de montes e de vales; da chuva dos céus beberá as águas”; “terra de ribeiros de águas, de fontes, e de abismos, que saem dos vales e das montanhas; terra de trigo e cevada, e de vides, e figueiras, e romeiras; terra de oliveiras, abundante de azeite e mel; terra em que comerás o pão sem escassez, e nada te faltará nela; terra cujas pedras são ferro, e de cujos montes tu cavarás o cobre”; “terra de que o Senhor teu Deus tem cuidado; os olhos do Senhor teu Deus estão sobre ela continuamente, desde o princípio até o fim do ano”. Deuteronômio 8:7-9; 11:10-12.

“Havendo-te pois o Senhor teu Deus introduzido na terra que jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó, te daria, grandes e boas cidades, que tu não edificaste, e casas cheias de todo o bem, que tu não encheste, e poços cavados, que tu não cavaste, vinhas e olivais que tu não plantaste, e comeres e te fartares, guarda-te, e que te não esqueças do Senhor”. Deuteronômio 6:10-12. “Guardai-vos de que vos esqueçais do concerto do Senhor vosso Deus […] porque o Senhor teu Deus é um fogo que consome, um Deus zeloso”. Deuteronômio 4:23, 24. Se fizessem mal à vista do Senhor, então, disse Moisés: “Certamente perecereis depressa da terra, a qual, passado o Jordão, ides possuir”. Deuteronômio 4:25, 26.

Depois da repetição pública da lei, Moisés completou o trabalho de escrever todas as leis, estatutos e juízos que Deus lhe dera, e todas as regras relativas ao cerimonial dos sacrifícios. O livro que continha estas coisas foi posto sob os cuidados de oficiais competentes, e para ser guardado com segurança foi depositado ao lado da arca. Achava-se ainda o grande líder tomado de receio de que o povo se afastasse de Deus. Em um discurso mui sublime e palpitante expôs-lhes as bênçãos que seriam deles sob condição de obediência, e a maldição que seguiria à transgressão:

“Se ouvires a voz do Senhor teu Deus, tendo cuidado de guardar todos os Seus mandamentos que eu te ordeno hoje”, “bendito serás tu na cidade, e bendito serás no campo”, no “fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, e o fruto dos teus animais; […] bendito o teu cesto e a tua amassadeira; bendito serás ao entrares, e bendito serás ao saíres. O Senhor entregará os teus inimigos que se levantarem contra ti, feridos diante de ti. […] O Senhor mandará que a bênção esteja contigo, nos teus celeiros, e em tudo o que puseres a tua mão”. Deuteronômio 28:1-8.

“Será porém que, se não deres ouvidos à voz do Senhor teu Deus, para não cuidares em fazer todos os Seus mandamentos e os Seus estatutos, que hoje te ordeno, então sobre ti virão todas estas maldições”, “e serás por pasmo, por ditado, e por fábula entre todos os povos a que o Senhor te levará.” “E o Senhor vos espalhará entre todos os povos, desde uma extremidade da Terra até a outra extremidade da Terra; e ali servirás a outros deuses que não conheceste, nem tu nem teus pais; ao pau e à pedra. E nem ainda entre as mesmas gentes descansarás, nem a planta de teu pé terá repouso; porquanto o Senhor ali te dará coração tremente, e desfalecimento dos olhos, e desmaio da alma. E a tua vida como suspensa estará diante de ti; e estremecerás de noite e de dia, e não crerás na tua própria vida. Pela manhã dirás: Ah! quem me dera ver a noite! e à tarde dirás: Ah! quem me dera ver a manhã! Pelo pasmo de teu coração, com que pasmarás, e pelo que verás com os teus olhos”. Deuteronômio 28:15, 37, 64-67.

Pelo Espírito de inspiração, olhando através dos séculos, Moisés descreveu as terríveis cenas da subversão final de Israel como nação, e a destruição de Jerusalém pelos exércitos de Roma: “O Senhor levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da Terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás; nação feroz de rosto, que não atentará para o rosto do velho, nem se apiedará do moço”. Deuteronômio 28:49, 50.

A completa devastação da terra, os horríveis sofrimentos do povo durante o cerco de Jerusalém por Tito, séculos mais tarde, foram vividamente descritos: “Comerá o fruto dos teus animais, e o fruto da tua terra, até que sejas destruído; […] e te angustiará em todas as tuas portas, até que venham a cair os teus altos e fortes muros, em que confiavas em toda a tua terra. […] Comerás o fruto do teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas, que te der o Senhor teu Deus, no cerco e no aperto com que os teus inimigos te apertarão.” “E quanto à mulher mais mimosa e delicada entre ti, que de mimo e delicadeza nunca tentou pôr a planta de seu pé sobre a terra, será maligno o seu olho contra o homem de seu regaço, […] e por causa de seus filhos que tiver; porque os comerá às escondidas pela falta de tudo, no cerco e no aperto com que o teu inimigo te apertará nas tuas portas”. Deuteronômio 28:51-53, 56, 57.

Moisés terminou com estas palavras impressionantes: “Os céus e a Terra tomo hoje por testemunhas contra vós, que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas tu e a tua semente, amando ao Senhor teu Deus, dando ouvidos à Sua voz, e te achegando a Ele; pois Ele é a tua vida, e a longura dos teus dias, para que fiques na terra que o Senhor jurou a teus pais, a Abraão, a Isaque e a Jacó, que lhes havia de dar”. Deuteronômio 30:19, 20.

A fim de mais profundamente gravar em todos os espíritos estas verdades, o grande chefe incorporou-as em poesia sacra. Este cântico não era somente histórico, mas também profético. Ao mesmo tempo em que de novo referia o maravilhoso trato de Deus para com Seu povo no passado, prefigurava também os grandes acontecimentos do futuro, a vitória final dos fiéis quando Cristo vier a segunda vez, com poder e glória. Ordenou-se ao povo que confiasse à memória esta história poética, e a ensinasse a seus filhos, e filhos de seus filhos. Deveria ser cantada pela congregação quando se reunia para o culto, e ser repetida pelo povo ao saírem eles para o seu labor cotidiano. Era dever dos pais gravar estas palavras na mente sensível de seus filhos, de tal maneira que nunca pudessem ser esquecidas.

Visto que os israelitas deveriam ser, em sentido especial, os guardas e conservadores da lei de Deus, deveriam eles especialmente impressionar-se com a significação dos preceitos da mesma, e com a importância da obediência, e por meio deles os seus filhos, e filhos de seus filhos. O Senhor ordenou com relação aos seus estatutos: “E as intimarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. […] E as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas”. Deuteronômio 6:7-9.

Quando seus filhos perguntassem no futuro: “Quais são os testemunhos, e estatutos e juízos que o Senhor nosso Deus vos ordenou?” deviam os pais então repetir a história do trato de Deus, cheio de graça, para com eles: como o Senhor agira para o seu livramento, a fim de que pudessem obedecer à Sua lei; e declarar-lhes: “O Senhor nos ordenou que fizéssemos todos estes estatutos, para temer ao Senhor nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida, como no dia de hoje. E será para nós justiça quando tivermos cuidado de fazer todos estes mandamentos perante o Senhor nosso Deus, como nos tem ordenado”. Deuteronômio 6:20-25.

Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, Capítulo 42.

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