A queda de Jericó

Baseado em Josué 5:13-15; 6; 7.

Os hebreus tinham entrado em Canaã, mas não a haviam sujeitado; e quanto às aparências humanas, a luta para obterem posse da terra deveria ser longa e difícil. Era habitada por uma raça poderosa, que se encontrava pronta para opor-se à invasão de seu território. As várias tribos se achavam coligadas pelo receio de um perigo comum. Seus cavalos e férreos carros de batalha, seu conhecimento do território, e seu adestramento na guerra dar-lhes-iam grande vantagem. Além disso, o território era guardado por fortalezas — “cidades grandes, e muradas até aos céus”. Deuteronômio 9:1. Unicamente na certeza de uma força que não lhes era própria, poderiam os israelitas esperar êxito no conflito que estava iminente.

Uma das mais poderosas fortalezas da Terra — a grande e rica cidade de Jericó — encontrava-se precisamente diante deles, a pouca distância apenas de seu acampamento em Gilgal. Nas bordas de uma planície fértil, abundante de ricas e variadas produções tropicais, com seus palácios e templos como habitação de luxo e do vício, apresentava esta orgulhosa cidade, por trás de suas sólidas muralhas, desafio ao Deus de Israel. Jericó era uma das principais sedes do culto idólatra, sendo dedicada especialmente a Astarote, a deusa da Lua. Ali se centralizava tudo que era mais vil e degradante na religião dos cananeus. O povo de Israel, em cuja mente se achavam frescas as lembranças dos resultados terríveis de seu pecado em Bete-Peor, apenas poderia olhar para esta cidade gentílica com repugnância e horror.

Submeter Jericó era considerado por Josué o primeiro passo na conquista de Canaã. Mas antes de tudo procurou certeza de guia divina; e esta lhe foi concedida. Retirando-se do acampamento a fim de meditar e orar para que o Deus de Israel fosse adiante de Seu povo, viu um guerreiro armado, de grande estatura e presença imponente, “que tinha na mão uma espada nua.” À intimação de Josué: “És tu dos nossos, ou dos nossos inimigos?” deu-se esta resposta: “Venho agora como Príncipe do Senhor.” A mesma ordem dada a Moisés em Horebe: “Descalça os sapatos de teus pés, porque o lugar em que estás é santo” (Josué 5:13-15), revelou o verdadeiro caráter do estranho misterioso. Era Cristo, o exaltado Ser, que estava em pé diante do chefe de Israel. Tomado de assombro, Josué caiu sobre seu rosto e adorou; e ouviu esta segurança: “Tenho dado na tua mão a Jericó e ao seu rei, os seus valentes e valorosos” (Josué 6:2); e recebeu instruções para a tomada da cidade.

Em obediência à ordem divina Josué arregimentou os exércitos de Israel. Nenhum assalto se deveria fazer. Apenas deviam fazer o circuito da cidade, levando a arca de Deus, e tocando trombetas. Em primeiro lugar iam os guerreiros, uma corporação de homens escolhidos, não para fazer agora a conquista pela sua própria habilidade e proeza, mas pela obediência às orientações a eles dadas por Deus. Seguiam-se sete sacerdotes com trombetas. Então a arca de Deus, rodeada de uma auréola de glória divina, era levada pelos sacerdotes vestidos nos trajes que denotavam seu sagrado ofício. Seguia-se o exército de Israel, estando cada tribo sob a sua bandeira. Tal foi o cortejo que circundou a cidade condenada. Nenhum som se ouvia a não ser o tropel daquela grande hoste e o estrondo solene das trombetas, ecoando pelas colinas, e ressoando através das ruas de Jericó. Concluído o circuito, o exército voltou em silêncio às suas tendas, e a arca foi de novo posta em seu lugar no tabernáculo.

Admiradas e alarmadas, as sentinelas da cidade notavam cada movimento, e o referiam às autoridades. Não sabiam a significação de toda esta manifestação; mas, quando viram aquela potente hoste a marchar em redor de sua cidade uma vez em cada dia, juntamente com a arca sagrada e os sacerdotes assistentes, o mistério da cena aterrorizou o coração de sacerdotes e povo. De novo inspecionaram suas fortes defesas, sentindo-se certos de que poderiam com êxito resistir ao mais poderoso ataque. Muitos punham a ridículo a idéia de que qualquer mal lhes pudesse advir por meio daquelas singulares demonstrações. Outros estavam aterrados contemplando o séquito que cada dia volteava a cidade. Lembravam-se de que o Mar Vermelho uma vez se abrira perante este povo, e que acabava de se lhes abrir uma passagem pelo rio Jordão. Não sabiam que mais prodígios Deus poderia operar por eles.

Durante seis dias, a hoste de Israel fez o circuito da cidade. Veio o sétimo dia, e com o primeiro alvor da manhã, Josué arregimentou os exércitos do Senhor. Determinou-se-lhes agora marchar sete vezes em redor de Jericó, e a um forte estrondo das trombetas dar uma aclamação em alta voz, pois Deus lhes havia entregue a cidade.

O vasto exército marchou solenemente em redor das condenadas muralhas. Tudo estava em silêncio — apenas o passo cadenciado de muitos pés, e o som ocasional da trombeta, rompiam a quietude das primeiras horas da manhã. Os sólidos muros de pedra maciça pareciam desafiar o cerco dos homens. Os vigias sobre os muros olhavam com temor crescente, quando, ao terminar o primeiro circuito, seguiu-se um segundo, então um terceiro, quarto, quinto, sexto. Qual poderia ser o objetivo desses movimentos misteriosos? Que grande acontecimento se achava iminente? Não tiveram muito tempo a esperar. Completando-se a sétima volta, deteve-se a longa procissão. As trombetas, que durante um intervalo estiveram silenciosas, prorrompem agora em um som que sacode a própria terra. As muralhas de pedra sólida, com suas torres e seteiras maciças, cambaleiam e levantam-se de seus fundamentos, e com fragor caem em ruínas por terra. Os habitantes de Jericó ficam paralisados de terror, e as hostes de Israel entram e tomam posse da cidade.

Os israelitas não haviam ganho a vitória pela sua própria força; a conquista fora inteiramente do Senhor; e, como as primícias da terra, a cidade, com tudo que continha, deveria ser votada como sacrifício a Deus. Israel devia impressionar-se com o fato de que na conquista de Canaã não deveriam combater por si mesmos, mas simplesmente como instrumentos para executarem a vontade de Deus; não para buscarem riquezas ou exaltação própria, mas a glória de Jeová, o seu Rei. Antes da tomada havia sido dada esta ordem: “A cidade será anátema ao Senhor, ela e tudo quanto houver nela”. “Guardai-vos do anátema, para que vos não metais em anátema […] e assim façais maldito o arraial de Israel, e o turbeis”. Josué 6:17, 18.

Todos os habitantes da cidade, com todo o ser vivo que nela se continha, “desde o homem até à mulher, desde o menino até ao velho, e até ao boi e gado miúdo, e ao jumento”, passaram ao fio da espada. Apenas a fiel Raabe, com sua casa, foi poupada, em cumprimento da promessa dos espias. A cidade foi queimada; seus palácios e templos, suas magnificentes moradas com todos os seus luxuosos pertences, ricas cortinas e custosos vestuários, foram entregues às chamas. Aquilo que não pôde ser destruído pelo fogo, “a prata, e o ouro, e os vasos de metal, e de ferro”, foi dedicado ao serviço do tabernáculo. O próprio local da cidade foi maldito; Jericó nunca deveria ser reconstruída como fortaleza; ameaçaram-se juízos sobre qualquer que pretendesse restabelecer os muros que o poder divino havia derribado. Esta solene declaração foi feita na presença de todo o Israel: “Maldito diante do Senhor seja o homem que se levantar e reedificar esta cidade de Jericó; perdendo o seu primogênito a fundará, e sobre seu filho mais novo lhe porá as portas”. Josué 6:21, 24, 26.

A destruição total do povo de Jericó não era senão um cumprimento das ordens previamente dadas por intermédio de Moisés, concernentes aos habitantes de Canaã: “Quando […] o Senhor Deus as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás.” “Das cidades destas nações […] nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida”. Deuteronômio 7:2; 20:16. Para muitos estas ordens parecem ser contrárias ao espírito de amor e misericórdia estipulado em outras partes da Bíblia; mas eram na verdade os ditames da sabedoria e bondade infinitas. Deus estava para estabelecer Israel em Canaã, desenvolver entre eles uma nação e governo que fossem uma manifestação de Seu reino na Terra. Não somente deveriam ser os herdeiros da verdadeira religião, mas deveriam disseminar seus princípios por todo o mundo. Os cananeus haviam-se entregado ao mais detestável e aviltante paganismo; e era necessário que a terra fosse limpa daquilo que de maneira tão certa impediria o cumprimento dos graciosos propósitos de Deus.

Aos habitantes de Canaã havia sido concedida ampla oportunidade para o arrependimento. Quarenta anos antes, a abertura do Mar Vermelho e os juízos sobre o Egito haviam testificado do poder supremo do Deus de Israel. E agora a destruição dos reis de Midiã, de Gileade e Basã, tinha ainda mostrado que Jeová era superior a todos os deuses. A santidade de Seu caráter e Sua aversão à impureza haviam sido demonstradas nos juízos que recaíram sobre Israel pela sua participação nos ritos abomináveis de Baal-Peor. Todos estes fatos eram conhecidos dos habitantes de Jericó, e muitos havia que participavam da convicção de Raabe, embora se recusassem a obedecer à mesma, convicção esta de que o Deus de Israel “é Deus em cima nos Céus e embaixo na Terra”. Semelhantes aos homens antediluvianos, os cananeus apenas viviam para blasfemar do Céu e contaminar a Terra. E tanto o amor como a justiça exigiam a imediata execução destes rebeldes a Deus, e adversários do homem.

Quão facilmente os exércitos do Céu derribaram os muros de Jericó, daquela cidade orgulhosa, cujos baluartes, quarenta anos antes, tinham lançado pânico aos espias incrédulos! O Poderoso de Israel havia dito: “Tenho dado na tua mão a Jericó.” Contra aquela palavra, a força humana era impotente.

“Pela fé caíram os muros de Jericó”. Hebreus 11:30. O Capitão do exército do Senhor comunicou-Se apenas com Josué; Ele não Se revelou a toda a congregação, e tocava a esta crer nas palavras de Josué ou duvidar das mesmas, obedecer às ordens por ele dadas em nome do Senhor, ou negar-lhe a autoridade. Não podiam ver a hoste de anjos que os acompanhava sob a chefia do Filho de Deus. Poderiam ter raciocinado: “Que movimentos sem significação são esses, e quão ridícula é a realização de uma marcha diária em torno dos muros da cidade, tocando trombetas de chifres de carneiro! Isto não pode ter efeito algum sobre aquelas proeminentes fortificações.” Mas o próprio plano de continuar esta cerimônia durante tanto tempo antes da subversão final dos muros, proporcionou oportunidade para o desenvolvimento da fé entre os israelitas. Deveriam impressionar-se com o fato de que sua força não estava na sabedoria do homem, nem em seu poder, mas unicamente no Deus de sua salvação. Deviam assim acostumar-se a depositar inteira confiança em seu divino Líder.

Deus fará grandes coisas por aqueles que nEle confiam. A razão pela qual Seu povo professo não tem maior força, é que confiam tanto em sua própria sabedoria, e não dão ao Senhor oportunidade para revelar Seu poder em favor deles. Ele auxiliará os Seus filhos crentes em toda a emergência, se nEle puserem toda a confiança, e fielmente Lhe obedecerem.

Logo depois da queda de Jericó, Josué decidiu atacar Ai, pequena cidade entre barrancos a poucos quilômetros ao oeste do vale do Jordão. Espias enviados àquele lugar trouxeram a notícia de que poucos eram os habitantes, e que unicamente uma pequena força seria necessária para vencê-la.

A grande vitória que Deus lhes havia ganho, tornara os israelitas confiantes em si mesmos. Porque Ele lhes tivesse prometido a terra de Canaã, achavam-se livres de perigo, e deixaram de compenetrar-se de que só o auxílio divino lhes poderia dar êxito. Mesmo Josué fez seus planos para a conquista de Ai, sem procurar conselho da parte de Deus.

Os israelitas tinham começado a exaltar sua própria força, e a olhar com desdém para os seus adversários. Esperava-se uma vitória fácil, e acharam-se suficientes três mil homens para tomarem o lugar. Arremessaram-se ao ataque sem a segurança de que Deus estaria com eles. Avançaram quase até às portas da cidade, apenas para encontrarem a mais decidida resistência. Tomados de pânico ante o número e completo preparo de seus inimigos, fugiram em confusão pela escarpada descida abaixo. Os cananeus puseram-se em feroz perseguição; “seguiram-nos desde a porta. […] e feriram-nos na descida”. Posto que a perda fosse pequena quanto ao número, tendo sido mortos apenas trinta e seis homens, foi a derrota desanimadora para toda a congregação. “O coração do povo se derreteu e se tornou como água.” Esta foi a primeira vez que se defrontaram com os cananeus em combate efetivo; e, se foram postos em fuga diante dos defensores desta pequena cidade, qual seria o resultado nos maiores conflitos que se achavam perante eles? Josué encarou o mau êxito como expressão do desagrado de Deus, e, angustiosamente, apreensivamente, “rasgou os seus vestidos, e se prostrou em terra sobre o seu rosto perante a arca do Senhor até a tarde, ele e os anciãos de Israel, e deitaram pó sobre as suas cabeças”.

“Ah Senhor Jeová!” exclamou ele, “por que, com efeito, fizeste passar a este povo o Jordão, para nos dares nas mãos dos amorreus, para nos fazerem perecer ? […] Ah Senhor! que direi? pois Israel virou as costas diante dos seus inimigos! Ouvindo isto, os cananeus e todos os moradores da terra nos cercarão e desarraigarão o nosso nome da terra; e então que farás ao Teu grande nome?”

A resposta de Jeová foi: “Levanta-te; por que estás prostrado assim sobre o teu rosto? Israel […] transgrediu o Meu concerto que lhes tinha ordenado.” Era este um momento para ação pronta e decidida, e não para desespero e lamentação. Havia pecado secreto no acampamento, e este devia ser descoberto e removido, antes que a presença e a bênção do Senhor pudessem estar com o Seu povo. “Não serei mais convosco, se não desarraigardes o anátema do meio de vós.”

A ordem de Deus tinha sido desatendida por um dos encarregados de executar Seus juízos. E a nação foi considerada responsável pelo crime do transgressor: “Tomaram do anátema, e também furtaram, e também mentiram.” Deram-se instruções a Josué para a descoberta e castigo do criminoso. Dever-se-ia empregar a sorte para descobri-lo. O pecador não foi diretamente indicado, ficando a questão em dúvida por algum tempo, a fim de que o povo pudesse sentir sua responsabilidade pelos pecados existentes entre eles, e assim fosse levado ao exame de coração, e humilhação perante Deus.

De manhã bem cedo, Josué reuniu o povo, “segundo as suas tribos”, e iniciou-se a cerimônia solene e impressionante. Passo a passo prosseguiu a investigação. Mais e mais minuciosa se tornava a terrível prova. Primeiro a tribo, depois a família, depois a casa, a seguir o homem, foram passados pela prova, e Acã, filho de Carmi, da tribo de Judá, foi indicado pelo dedo de Deus como o perturbador de Israel.

Para confirmar seu crime, fora de toda a dúvida, não deixando base para a acusação de que fora condenado injustamente, Josué, de modo solene, conjurou a Acã a reconhecer a verdade. O miserável homem fez ampla confissão de seu crime: “Verdadeiramente pequei contra o Senhor Deus de Israel. […] Quando vi entre os despojos uma boa capa babilônica, e duzentos siclos de prata, e uma cunha de ouro do peso de cinqüenta siclos, cobicei-os e tomei-os; e eis que estão escondidos na terra, no meio da minha tenda.” Expediram-se imediatamente mensageiros para a tenda, onde removeram a terra no lugar indicado, e “eis que tudo estava escondido na sua tenda, e a prata debaixo dela. Tomaram pois aquelas coisas do meio da tenda, e as trouxeram a Josué […] e as deitaram perante o Senhor”.

Pronunciou-se a sentença, e imediatamente foi executada. “Por que nos turbaste?” disse Josué; “o Senhor te turbará a ti este dia.” Como o povo houvesse sido responsabilizado pelo pecado de Acã, e tivesse sofrido pelas suas conseqüências, deveria, mediante seus representantes, tomar parte no castigo àquele pecado. “Todo o Israel o apedrejou com pedras.”

Então ergueu-se sobre ele um grande montão de pedras — testemunho ao pecado e seu castigo. “Pelo que se chamou o nome daquele lugar o vale de Acor”, isto é, “perturbação.” No livro das Crônicas está escrita a sua memória: “Acar, o perturbador de Israel”. 1 Crônicas 2:7.

O pecado de Acã foi cometido em desafio às advertências mais diretas e solenes e às mais grandiosas manifestações do poder de Deus. “Guardai-vos do anátema, para que vos não metais em anátema”, tinha sido a proclamação a todo o Israel. A ordem fora dada imediatamente depois da passagem miraculosa do Jordão, e do reconhecimento do concerto de Deus pela circuncisão do povo — após a observância da Páscoa, e o aparecimento do Anjo do concerto, o Capitão da hoste do Senhor. A ela se seguira a subversão de Jericó, dando provas da destruição que certo surpreenderá todos os transgressores da lei de Deus. O fato de que somente o poder divino dera a vitória a Israel, de que não entraram na posse de Jericó pela sua própria força, dava um peso solene à ordem que lhes proibia participar dos despojos. Deus, pelo poder de Sua palavra, vencera aquela fortaleza; a conquista era Sua, e a Ele, unicamente, a cidade com todas as coisas que nela se continham devia ser devotada.

Dentre os milhões de Israel apenas um homem houve que, naquela hora solene de triunfo e juízo, ousara transgredir a ordem de Deus. A cobiça de Acã foi despertada à vista daquela custosa capa de Sinear; mesmo quando ela o levou em face da morte, ele a chamou “uma boa capa babilônica”. Um pecado arrastara outro, e ele se apropriou do ouro e da prata dedicados ao tesouro do Senhor — roubou a Deus as primícias da terra de Canaã.

O mortal pecado que determinara a ruína de Acã teve suas raízes na cobiça, um dos mais comuns e mais levianamente considerados dentre todos os pecados. Enquanto outras faltas são descobertas e castigadas, quão raramente apenas desperta censura a violação do décimo mandamento. A enormidade deste pecado, e seus terríveis resultados, são a lição da história de Acã.

A cobiça é um mal de desenvolvimento gradual. Acã havia acariciado a avidez ao ganho até que isto se tornou um hábito, atando-o em grilhões quase impossíveis de quebrar. Enquanto alimentava este mal, ter-se-ia enchido de horror ao pensamento de acarretar desgraça sobre Israel; mas suas percepções se amorteceram pelo pecado, e, quando sobreveio a tentação, caiu como fácil presa.

Não são ainda cometidos pecados semelhantes em face de advertências tão solenes e explícitas? Proíbe-se-nos tão diretamente condescender com a cobiça como a Acã foi proibido apropriar-se dos despojos de Jericó. Deus declarou ser isto idolatria. Somos advertidos: “Não podeis servir a Deus e a Mamom”. Mateus 6:24. “Acautelai-vos e guardai-vos da avareza”. Lucas 12:15. “Nem ainda se nomeie entre vós”. Efésios 5:3; Colossences 3:5. Temos diante de nós a sorte terrível de Acã, de Judas, de Ananias e Safira. Antes de todos estes, temos a de Lúcifer, aquele “filho da alva”, que, cobiçando mais elevada condição, perdeu para sempre o brilho e ventura do Céu. E, contudo, apesar de todas essas advertências, impera, de forma generalizada, a cobiça.

Por toda parte se vê o seu rastro viscoso. Cria o descontentamento e a dissensão nas famílias; provoca a inveja e ódio dos pobres contra os ricos; inspira a opressão cruel do rico ao pobre. E este mal não existe somente no mundo, mas na igreja também. Quão comum é achar mesmo ali o egoísmo, a avareza, a ganância, a negligência da caridade, e o roubo a Deus “nos dízimos e ofertas”! Entre membros da igreja, considerados idôneos e cumpridores do dever existem, triste é dizer, muitos Acãs! Muito homem vem majestosamente à igreja, e senta-se à mesa do Senhor, enquanto entre as suas posses se acham ocultos lucros ilícitos, coisas que Deus amaldiçoou. Por uma boa capa babilônica multidões sacrificam a aprovação da consciência e sua esperança do Céu. Multidões permutam sua integridade e capacidade para o que é útil por um saco de siclos de prata. Os clamores dos pobres que sofrem são desatendidos; a luz do evangelho é estorvada em seu caminho; instiga-se o escárnio dos mundanos pelas práticas que desmentem a profissão cristã; e no entanto o cobiçoso que professa a religião continua a amontoar tesouros. “Roubará o homem a Deus? todavia vós Me roubais”, diz o Senhor. Malaquias 3:8.

O pecado de Acã trouxe revés a toda a nação. Pelo pecado de um homem, o desprazer de Deus repousará sobre Sua igreja até que a transgressão seja descoberta e removida. A influência que mais temida deve ser pela igreja não é a dos francos oponentes, incrédulos e blasfemos, mas dos que incoerentemente professam a Cristo. Estes são os que impedem as bênçãos de Deus de virem a Israel, e acarretam fraqueza ao Seu povo.

Quando a igreja se acha em dificuldade, quando existem a frieza e o declínio espiritual, dando ocasião a que os inimigos de Deus triunfem, então, em vez de cruzar os braços e lamentar sua infeliz condição, investiguem os membros se não há um Acã no acampamento. Com humilhação e exame de coração, procure cada qual descobrir os pecados ocultos que excluem a presença de Deus.

Acã reconheceu sua culpa, quando era demasiado tarde para que a confissão o beneficiasse. Vira os exércitos de Israel voltarem de Ai derrotados e desanimados; contudo não se apresentou para confessar seu pecado. Vira Josué e os anciãos de Israel curvados em terra, com uma dor demasiado grande para exprimir-se com palavras. Houvesse feito então confissão, e teria dado alguma prova de verdadeiro arrependimento; mas guardou ainda silêncio. Ouvira a proclamação de que um grande crime fora cometido, e ouvira mesmo especificar-se o caráter daquele crime. Seus lábios, porém, estavam fechados. Veio então a investigação solene. Como lhe fremiu a alma de terror, ao ver indicada sua tribo, a seguir sua família e depois sua casa! Mas ainda não proferiu confissão alguma, até que o dedo de Deus se pôs sobre ele. Então, quando o seu pecado não mais poderia ser escondido, admitiu a verdade. Quão freqüentemente se fazem confissões semelhantes! Há uma grande diferença entre admitir fatos depois que os mesmos foram provados, e confessar pecados apenas conhecidos por nós mesmos e Deus. Acã não teria confessado seu crime se não tivesse esperado com isso evitar as conseqüências do mesmo. Mas sua confissão apenas serviu para mostrar que seu castigo era justo. Não havia genuíno arrependimento do pecado, nem contrição, nem mudança de propósito, nem aversão ao mal.

Assim pelos culpados serão feitas confissões quando se encontrarem eles perante o tribunal de Deus, depois de haver sido decidido todo o caso, ou para a vida ou para a morte. As conseqüências que lhes resultarão, arrancarão de cada um o reconhecimento de seu pecado. Será extorquido da alma por um senso terrível de condenação e medonha expectativa de juízo. Mas tais confissões não poderão salvar o pecador.

Enquanto podem esconder suas transgressões, de seus semelhantes, muitos, como Acã, sentem-se livres de perigo, e lisonjeiam-se de que Deus não será severo ao notar a iniqüidade. Demasiado tarde seus pecados pô-los-ão a descoberto naquele dia em que para sempre não serão purificados com sacrifício nem com ofertas. Quando se abrirem os registros do Céu, o Juiz não declarará com palavras ao homem a sua culpa, mas lançará um olhar penetrante, convincente, e toda ação, todo cometimento da vida, gravar-se-á vividamente na memória do malfeitor. Não será necessário como nos dias de Josué que a pessoa seja pesquisada da tribo à família, mas seus próprios lábios confessarão sua vergonha. Os pecados ocultos ao conhecimento dos homens serão então proclamados ao mundo todo.

Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, Capítulo 45.

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