A Arca tomada pelos Filisteus

Baseado em 1 Samuel 3-7.

Outra advertência deveria ser dada à casa de Eli. Deus não podia comunicar-Se com o sumo sacerdote e seus filhos; os pecados deles, qual densa nuvem, haviam excluído a presença de Seu Espírito Santo. Mas, em meio do mal, o menino Samuel permanecia fiel ao Céu, e dar a mensagem de condenação à casa de Eli foi sua missão, como profeta do Altíssimo que era.

“A palavra do Senhor era de muita valia naqueles dias; não havia visão manifesta. E sucedeu naquele dia que, estando Eli deitado em seu lugar (e os seus olhos se começavam já a escurecer, que não podia ver), e, estando também Samuel já deitado, antes que a lâmpada de Deus se apagasse no templo do Senhor, em que estava a arca de Deus, o Senhor chamou a Samuel.” Supondo ser a voz de Eli, o menino foi apressadamente para junto do leito do sacerdote, dizendo: “Eis-me aqui, porque tu me chamaste.” A resposta foi: “Não te chamei eu, filho meu, torna a deitar-te”. 1 Samuel 3:1-5. Três vezes Samuel foi chamado, e três vezes respondeu de modo semelhante. E então Eli se convenceu de que o misterioso chamado era a voz de Deus. O Senhor preterira o Seu servo escolhido, o homem de cabelos brancos, para comunicar-Se com uma criança. Isto em si mesmo era uma repreensão amarga, porém merecida, a Eli e sua casa.

Nenhum sentimento de inveja ou suspeita despertou-se no coração de Eli. Recomendou a Samuel que respondesse, se de novo fosse chamado: “Fala, Senhor, porque o Teu servo ouve.” Mais uma vez foi ouvida a voz, e o menino respondeu: “Fala, porque o Teu servo ouve”. 1 Samuel 3:9, 10. Tão aterrado ficou com o pensamento de que o grande Deus lhe falaria, que não pôde lembrar-se das palavras exatas que Eli mandou dizer.

“E disse o Senhor a Samuel: Eis aqui vou Eu a fazer uma coisa em Israel, a qual todo o que ouvir lhe tinirão ambas as orelhas. Naquele mesmo dia suscitarei contra Eli tudo quanto tenho falado contra a sua casa; começá-lo-ei e acabá-lo-ei. Porque já Eu lhe fiz saber que julgarei a sua casa para sempre, pela iniqüidade que ele bem conhecia, porque, fazendo-se os seus filhos abomináveis, não os repreendeu. Portanto, jurei à casa de Eli que nunca jamais será expiada a iniqüidade da casa de Eli com sacrifício nem com oferta de manjares”. 1 Samuel 3:11-14.

Antes de receber de Deus esta mensagem, “Samuel ainda não conhecia ao Senhor, e ainda não lhe tinha sido manifestada a palavra do Senhor”; isto é, ele não estava familiarizado com tais manifestações diretas da presença de Deus conforme eram concedidas aos profetas. Foi o propósito do Senhor revelar-Se de uma maneira inesperada, para que Eli viesse ouvir a tal respeito por meio da surpresa e indagação do jovem.

Samuel ficou cheio de temor e espanto, ante o pensamento de ter-lhe sido confiada uma mensagem tão terrível. Pela manhã se dirigiu aos seus deveres como de costume, mas com um grande peso em seu coração juvenil. O Senhor não o havia mandado revelar a terrível denúncia, donde o permanecer ele em silêncio, evitando, tanto quanto possível, a presença de Eli. Tremia, receoso de que alguma pergunta o compelisse a declarar os juízos divinos contra aquele a quem amava e reverenciava. Eli estava certo de que a mensagem predizia alguma grande calamidade, a ele e sua casa. Chamou Samuel, e ordenou-lhe que relatasse fielmente o que o Senhor revelara. O jovem obedeceu, e o idoso homem prostrou-se em humilde submissão à pavorosa sentença. “O Senhor é”, disse ele; “faça o que bem parecer aos Seus olhos”. 1 Samuel 3:7, 18.

Todavia, Eli não manifestou os frutos do verdadeiro arrependimento. Confessou sua falta, mas deixou de renunciar ao pecado. Ano após ano o Senhor retardava os Seus ameaçados juízos. Muito se poderia ter feito naqueles anos para remir as faltas do passado; mas o idoso sacerdote não adotou medidas eficazes para corrigir os males que estavam a poluir o santuário do Senhor, e levando em Israel milhares à ruína. A paciência de Deus deu lugar a que Hofni e Finéias endurecessem o coração, e se tornassem ainda mais audazes na transgressão. As mensagens de advertência e reprovação à sua casa foram por Eli dadas a conhecer à nação toda. Por este meio ele esperava até certo ponto contrariar a má influência de sua passada negligência. Mas as advertências foram desatendidas pelo povo, assim como haviam sido pelos sacerdotes. O povo das nações circunvizinhas também, o qual não ignorava as iniqüidades abertamente praticadas em Israel, tornou-se ainda mais audaz em sua idolatria e crime. Não experimentavam a intuição de culpa pelos seus pecados, como o teriam feito caso houvessem os israelitas preservado a sua integridade. Aproximava-se, porém, o dia da retribuição. A autoridade de Deus havia sido posta de lado e Seu culto negligenciado e desprezado; e tornou-se necessário intervir Ele para que se mantivesse a honra de Seu nome.

“E Israel saiu ao encontro, à peleja, aos filisteus, e se acamparam junto a Ebenézer; e os filisteus se acamparam junto a Afeque.” Esta expedição foi empreendida pelos israelitas sem o conselho do Senhor, sem o apoio de sumo sacerdote ou profeta. “E os filisteus se dispuseram em ordem de batalha, para sair ao encontro a Israel; e, estendendo-se a peleja, Israel foi ferido diante dos filisteus, porque feriram na batalha, no campo, uns quatro mil homens.” Voltando para o acampamento a força fragmentada e desalentada, “disseram os anciãos de Israel: Por que nos feriu o Senhor hoje diante dos filisteus?” A nação estava madura para os juízos de Deus, e no entanto não viam que seus próprios pecados haviam sido a causa daquele terrível revés. E disseram: “Tragamos de Siló a arca do concerto do Senhor, e venha no meio de nós, para que nos livre da mão de nossos inimigos.” O Senhor não dera ordem ou permissão para que a arca fosse ao exército; contudo os israelitas estavam confiantes em que deles seria a vitória, e proferiram uma grande aclamação quando ela foi, pelos filhos de Eli, levada ao arraial.

Os filisteus consideravam a arca como o deus de Israel. Todas as grandes obras que Jeová fizera em prol de Seu povo, eram por eles atribuídas ao poder da mesma. Ao ouvirem as aclamações de júbilo pela sua aproximação, disseram: “Que voz de tão grande júbilo, é esta no arraial dos hebreus? Então souberam que a arca do Senhor era vinda ao arraial. Pelo que os filisteus se atemorizaram; porque diziam: Deus veio ao arraial. E diziam mais: Ai de nós! que tal nunca jamais sucedeu antes. Ai de nós! quem nos livrará da mão destes grandiosos deuses? Estes são os deuses que feriram aos egípcios com todas as pragas junto ao deserto. Esforçai-vos, e sede homens, ó filisteus, para que porventura não venhais a servir aos hebreus, como eles serviram a vós; sede pois homens, e pelejai”. 1 Samuel 4:2, 3, 6-9.

Os filisteus deram um encarniçado assalto, de que resultou a derrota de Israel, com grande morticínio. Trinta mil homens jaziam mortos em campo, e a arca de Deus foi tomada, tendo os dois filhos de Eli tombado enquanto combatiam para defendê-la. Deixou-se assim, novamente, nas páginas da História um testemunho para todos os séculos futuros, de que a iniqüidade do povo professo de Deus não ficará impune. Quanto maior for o conhecimento da vontade de Deus, tanto maior o pecado daqueles que a desatendem. A mais espantosa calamidade que poderia ocorrer, recaíra a Israel. A arca de Deus fora apreendida, e estava em poder do inimigo. A glória havia verdadeiramente se afastado de Israel quando o símbolo da presença e poder contínuos de Jeová foi removido do meio deles. Com aquele escrínio sagrado associavam-se as mais maravilhosas revelações da verdade e poder de Deus. Em tempos anteriores, vitórias miraculosas haviam sido conseguidas quando quer que o mesmo aparecia. Faziam-lhe sombras as asas dos querubins de ouro, e a glória indescritível do shekinah, símbolo visível do altíssimo Deus, repousara sobre ela no lugar santíssimo. Mas agora não trouxera vitória alguma. Não se mostrara ser uma defesa nesta ocasião, e havia pranto por todo o Israel.

Não se haviam compenetrado de que sua fé era simplesmente uma fé nominal, e perderam o poder da mesma para prevalecerem com Deus. A lei de Deus, contida na arca, era também um símbolo de Sua presença; mas haviam lançado o desprezo aos mandamentos, desdenharam suas reivindicações e contristaram o Espírito do Senhor de modo que Se retirou do meio deles. Quando o povo obedecia aos santos preceitos, o Senhor estava com eles, para agir em prol deles, com Seu poder infinito; mas, quando olharam para a arca, e não a puseram em relação com Deus, e tampouco honraram Sua vontade revelada pela obediência à Sua lei, serviu-lhes ela de pouco mais que uma caixa comum. Olhavam para a arca como as nações idólatras olhavam para os seus deuses, como se ela possuísse em si os elementos de poder e salvação. Transgrediam a lei que nela se continha; pois o seu mesmo culto à arca determinou a formalidade, a hipocrisia e a idolatria. Seu pecado os separara de Deus, e Ele não lhes poderia dar a vitória antes que se arrependessem e abandonassem sua iniqüidade.

Não bastava que a arca e o santuário estivessem no meio de Israel. Não bastava que os sacerdotes oferecessem sacrifícios, e que o povo fosse chamado filhos de Deus. O Senhor não toma em consideração o pedido daqueles que acariciam a iniqüidade no coração; está escrito que “o que desvia os seus ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável”. Provérbios 28:9.

Quando o exército saiu para a batalha, Eli, cego e velho, havia ficado em Siló. Foi com inquietadores pressentimentos que ele aguardou o resultado do conflito, “porquanto o seu coração estava tremendo pela arca de Deus”. Tomando lugar fora da porta do tabernáculo, assentava-se todos os dias ao lado do caminho, esperando ansiosamente a chegada de um mensageiro do campo de batalha.

Finalmente, um benjamita do exército, “com os vestidos rotos e com terra sobre a cabeça”, veio correndo pela subida que dava para a cidade. Passando descuidadamente pelo ancião, ao lado do caminho, arremessou-se à cidade, e referiu às multidões ansiosas as notícias da derrota e das perdas.

O ruído de choro e lamentação chegou àquele que ao lado do tabernáculo vigiava. O mensageiro foi-lhe trazido. E o homem disse a Eli: “Israel fugiu de diante dos filisteus, e houve também grande destroço entre o povo; e, demais disto, também teus dois filhos, Hofni e Finéias, morreram.” Eli pôde suportar tudo isto, por terrível que fosse, pois ele o esperava. Mas quando o mensageiro acrescentou: “A arca de Deus é tomada”, uma expressão de indizível angústia lhe passou pelo semblante. O pensamento de que seu pecado de tal maneira desonrara a Deus, e fizera com que Ele retirasse Sua presença de Israel, era mais do que podia suportar; deixaram-no suas forças, ele caiu, “e quebrou-se-lhe o pescoço, e morreu”.

A mulher de Finéias, apesar da impiedade de seu marido, temia ao Senhor. A morte de seu sogro e de seu esposo, e, acima de tudo, a terrível notícia de que a arca de Deus fora tomada, causaram-lhe a morte. Compenetrou-se de que a última esperança de Israel havia desaparecido; e deu à criança nascida nesta hora de adversidade o nome de Icabode, ou “Inglório”, dizendo, chorosa, com sua respiração moribunda, as palavras: “Foi-se a glória de Israel. Porquanto a arca de Deus foi levada presa”. 1 Samuel 4:12, 11, 17-22.

Mas o Senhor não havia rejeitado o Seu povo inteiramente, tampouco toleraria por muito tempo a exultação dos gentios. Usara os filisteus como instrumento para punir Israel, e empregou a arca para castigar os filisteus. Nos tempos passados a presença divina a acompanhara, a fim de ser ela a força e glória de Seu povo obediente. Aquela Presença invisível ainda a acompanharia para levar o terror e a destruição aos transgressores de Sua santa lei. O Senhor muitas vezes emprega Seus piores inimigos para punir a infidelidade de Seu povo professo. Os ímpios podem triunfar por algum tempo, vendo Israel sofrer o castigo; mas virá o tempo em que eles também deverão defrontar-se com a sentença de um Deus santo, que odeia o pecado. Onde quer que a iniqüidade seja acalentada, seguir-se-ão, rápidos e infalíveis, os juízos de Deus.

Os filisteus levaram a arca, triunfalmente, para Asdode, uma de suas cinco cidades principais, e a colocaram na casa de seu deus Dagom. Pensaram que o poder que até ali havia acompanhado a arca seria deles, e que este, unido com o poder de Dagom, torná-los-ia invencíveis. Mas, ao entrar no templo no dia seguinte, viram um quadro que os encheu de consternação. Dagom tinha caído sobre seu rosto em terra, diante da arca de Jeová. Os sacerdotes reverentemente ergueram o ídolo, e o repuseram em seu lugar. Mas, na manhã seguinte, encontraram-no mutilado de maneira singular, jazendo de novo sobre a terra, diante da arca. A parte superior deste ídolo era semelhante à de um homem, e a inferior tinha a semelhança de peixe. Todas as partes que se assemelhavam à forma humana tinham sido agora separadas, e apenas permanecia o corpo de peixe. Sacerdotes e povo ficaram tomados de terror; consideraram este misterioso acontecimento como um mau agouro, anunciando destruição para eles e seus ídolos, diante do Deus dos hebreus. Mudaram então a arca de seu templo, e a colocaram em um edifício à parte.

Os habitantes de Asdode foram feridos de uma doença aflitiva e fatal. Lembrando-se das pragas que foram infligidas ao Egito pelo Deus de Israel, o povo atribuiu suas aflições à presença da arca entre eles. Foi resolvido transportá-la a Gate. Mas a praga seguiu de perto a sua mudança, e os homens daquela cidade a enviaram para Ecrom. Ali o povo a recebeu aterrorizado, exclamando: “Transportaram para mim a arca do Deus de Israel, para me matarem, a mim e ao meu povo.” Volveram aos seus deuses em busca de proteção, como o povo de Gate e Asdode haviam feito; porém a obra do destruidor continuou até que em sua angústia “o clamor da cidade subia até o Céu”. 1 Samuel 5:10, 12. Receando conservar por mais tempo a arca entre as casas dos homens, o povo em seguida colocou-a em pleno campo. Seguiu-se então uma praga de ratos, que infestou a terra, destruindo os produtos do solo, tanto nos celeiros como no campo. Completa destruição, pela doença e pela fome, ameaçava agora a nação.

Durante sete meses, a arca permaneceu na Filístia, e durante este tempo os israelitas não fizeram esforços para a recuperarem. Mas estavam agora os filisteus tão ansiosos para se livrarem de sua presença como haviam estado para a obterem. Em vez de ser uma fonte de força para eles, foi um grande peso e grave maldição. Contudo não sabiam o que fazer; pois aonde quer que ela ia, seguiam-se os juízos de Deus. O povo chamou os príncipes da nação, juntamente com os sacerdotes e adivinhos, e ansiosamente indagou: “Que faremos nós da arca do Senhor? Fazei-nos saber como a tornaremos a enviar ao seu lugar.” Foram aconselhados a devolvê-la com uma valiosa oferta para expiação da culpa. “Então”, disseram os sacerdotes, “sereis curados, e se vos fará saber porque a Sua mão se não tira de vós.”

Para desviar ou remover uma praga, era antigamente costume entre os gentios fazer-se uma imagem de ouro, prata, ou outro material, daquilo que causava destruição, ou do objeto ou parte do corpo especialmente atacada. Isso era colocado sobre alguma coluna, ou em algum ponto bem visível, e supunha-se ser uma proteção eficaz contra os males assim representados. Costume semelhante ainda existe entre alguns povos gentílicos. Quando uma pessoa que sofre de alguma doença vai ao templo de seu ídolo em busca de cura, leva consigo uma figura da parte atacada, que apresenta como uma oferta ao seu deus.

Foi de acordo com esta superstição dominante, que os principais dos filisteus recomendaram ao povo fazer representações das pragas pelas quais tinham sido afligidos: “cinco hemorróidas de ouro e cinco ratos de ouro”, “segundo o número dos príncipes dos filisteus”; “porquanto”, disseram eles, “a praga é uma mesma sobre todos vós e sobre todos os vossos príncipes”. 1 Samuel 6:2-4.

Aqueles magos reconheciam que um poder misterioso acompanhava a arca, poder este que eles não tinham sabedoria para enfrentar. Contudo não aconselhavam o povo a desviar-se de sua idolatria para servirem ao Senhor. Odiavam ainda ao Deus de Israel, embora compelidos pelos juízos esmagadores a submeter-se à Sua autoridade. Assim os pecadores podem convencer-se pelos juízos de Deus de que é inútil contender contra Ele. Podem ser obrigados a sujeitar-se ao Seu poder, enquanto no coração se rebelam contra o Seu domínio. Tal submissão não pode salvar o pecador. O coração deve render-se a Deus — deve ser subjugado pela graça divina — antes que o arrependimento do homem possa ser aceito.

Quão grande é a longanimidade de Deus para com os ímpios! Os filisteus idólatras e o relapso Israel haviam semelhantemente desfrutado dos dons de Sua providência. Dez milhares de bênçãos, sem que fossem notadas, estiveram a cair silenciosamente no caminho de homens ingratos e rebeldes. Cada bênção lhes falava do Doador, mas eles eram indiferentes ao Seu amor. A paciência de Deus era muito grande para com os filhos dos homens; mas, quando persistiam contumazes em sua impenitência, Ele removia deles Sua mão protetora. Recusaram-se a escutar a voz de Deus nas obras criadas, e nas advertências, conselhos e reprovações de Sua Palavra; e assim Ele foi obrigado a falar-lhes por meio de juízos.

Alguns houve entre os filisteus que estavam prontos a opor-se à volta da arca à sua própria terra. Tal reconhecimento do poder do Deus de Israel seria humilhante ao orgulho da Filístia. Mas “os sacerdotes e os adivinhadores” (1 Samuel 6:2) aconselharam o povo a não imitar a teimosia de Faraó e dos egípcios, e assim trazer sobre si ainda maiores aflições. Propuseram então um plano que ganhou o assentimento de todos, e imediatamente foi posto em execução. A arca, juntamente com a oferta feita de ouro, para a expiação da culpa, foi posta em um carro novo, prevenindo assim todo o perigo de contaminação; a este carro foram ligadas duas vacas sobre cujo pescoço nunca havia sido posto jugo. Seus bezerros foram presos em casa, e as vacas foram deixadas livres para irem onde quisessem. Se a arca fosse assim devolvida aos israelitas pelo caminho de Bete-Semes, a cidade mais próxima dos levitas, os filisteus aceitariam isto como prova de que o Deus de Israel lhes fizera aquele grande mal; “e, se não”, disseram eles, “saberemos que não nos tocou a Sua mão, e que isto nos sucedeu por acaso”.

Sendo deixadas à vontade, as vacas afastaram-se de seus bezerros, e, mugindo enquanto iam, tomaram a estrada direta para Bete-Semes. Sem serem guiados por mão humana, os pacientes animais se conservaram a caminho. A presença divina acompanhou a arca, e ela passou em segurança exatamente para o lugar designado.

Era então o tempo da ceifa do trigo, e os homens de Bete-Semes estavam a fazer a colheita no vale. “E, levantando os seus olhos, viram a arca, e vendo-a, se alegraram. E o carro veio ao campo de Josué, o bete-semita, e parou ali; e ali estava uma grande pedra; e fenderam a madeira do carro, e ofereceram as vacas ao Senhor em holocausto.” Os príncipes dos filisteus, que haviam acompanhado a arca “até o termo de Bete-Semes” (1 Samuel 6:9, 13, 14, 12), e foram testemunhas da recepção à mesma, voltaram então a Ecrom. A praga cessou, e ficaram convencidos de que suas calamidades foram um juízo do Deus de Israel.

Os homens de Bete-Semes rapidamente espalharam a notícia de que a arca estava em seu poder, e o povo do território circunvizinho reuniu-se para festejar a sua volta. A arca fora posta sobre a pedra que a princípio servira de altar, e diante dela sacrifícios adicionais foram oferecidos ao Senhor. Houvessem os adoradores se arrependido de seus pecados, e a bênção de Deus os teria acompanhado. Mas não estavam a obedecer fielmente à Sua lei; e, ao mesmo tempo que se regozijavam com a volta da arca como um precursor do bem, não tinham uma intuição verdadeira de sua santidade. Em vez de prepararem um local conveniente para sua recepção, permitiram que ela ficasse no campo da ceifa. Como continuassem a olhar para o receptáculo sagrado, e falar acerca da maneira maravilhosa por que havia sido recuperado, começaram a conjeturar sobre onde jazia o seu poder peculiar. Finalmente, vencidos pela curiosidade, removeram a cobertura, e arriscaram-se a abri-la.

Todo o Israel havia sido ensinado a olhar para a arca com temor e reverência. Quando se exigia mudá-la de um lugar para outro, os levitas nem sequer deveriam olhar para ela. Apenas uma vez ao ano permitia-se ao sumo sacerdote ver a arca de Deus. Mesmo os filisteus gentios não haviam ousado remover a sua cobertura. Anjos do Céu, invisíveis, sempre a acompanhavam em todas as suas viagens. A irreverente ousadia do povo de Bete-Semes foi prontamente punida. Muitos foram feridos de morte instantânea.

Os sobreviventes não foram levados por este juízo a arrepender-se de seu pecado, mas apenas a olhar para a arca com um temor supersticioso. Ansiosos por se livrarem de sua presença, e não ousando contudo afastá-la, os bete-semitas enviaram uma mensagem aos habitantes de Quiriate-Jearim, convidando-os a levá-la. Com grande alegria os homens deste lugar receberam o sagrado receptáculo. Sabiam que ele era o penhor do favor divino aos obedientes e fiéis. Com solene alegria levaram-na à sua cidade, e a colocaram na casa de Abinadabe, levita. Este homem designou seu filho Eleazar para cuidar da mesma, e ela ali ficou durante muitos anos.

Durante os anos que se passaram desde que o Senhor Se manifestara pela primeira vez ao filho de Ana, viera a vocação de Samuel ao ofício profético a ser reconhecida por toda a nação. Transmitindo fielmente a advertência divina à casa de Eli, por penoso e probante que tivesse sido este dever, Samuel dera prova de sua fidelidade como mensageiro de Jeová; “e o Senhor era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras deixou cair em terra. E todo o Israel, desde Dã até Berseba, conheceu que Samuel estava confirmado por profeta do Senhor”.

Os israelitas, como uma nação, continuavam ainda em estado de irreligião e idolatria, e como castigo permaneceram sujeitos aos filisteus. Durante este tempo Samuel visitou as cidades e aldeias por todo o país, procurando volver o coração do povo ao Deus de seus pais; e seus esforços não ficaram sem bons resultados. Depois de sofrerem a opressão de seus inimigos durante vinte anos, os israelitas lamentavam “após o Senhor”. Aconselhou-os Samuel: “Se com todo o vosso coração vos converterdes ao Senhor, tirai dentre vós os deuses estranhos e os astarotes, e preparai o vosso coração ao Senhor, e servi a Ele só” (1 Samuel 7:3); aqui vemos que a piedade prática, a religião do coração, era ensinada nos dias de Samuel como o foi por Cristo quando Ele esteve na Terra. Sem a graça de Cristo, as formas exteriores da religião eram destituídas de valor para o antigo Israel. Elas são o mesmo para o Israel moderno.

Há hoje necessidade de um tal reavivamento da verdadeira religião do coração como o que foi experimentado pelo antigo Israel. O arrependimento é o primeiro passo que deve ser dado por todos os que desejam voltar a Deus. Ninguém pode efetuar isto por outrem. Devemos individualmente humilhar nossa alma perante Deus, e lançar fora nossos ídolos. Quando houvermos feito tudo o que pudermos, o Senhor nos manifestará a Sua salvação.

Com a cooperação dos cabeças das tribos, reuniu-se uma grande assembléia em Mispa. Ali teve lugar um jejum solene. Com profunda humilhação o povo confessou os seus pecados; e, como prova de sua resolução de obedecer às instruções que tinham ouvido, investiram a Samuel com a autoridade de juiz.

Os filisteus interpretaram essa reunião como um conselho de guerra, e com uma grande força saíram para dispersar os israelitas, antes que chegassem seus planos à maturidade. A notícia de sua aproximação causou grande terror em Israel. O povo rogou a Samuel: “Não cesses de clamar ao Senhor nosso Deus por nós, para que nos livre da mão dos filisteus”. 1 Samuel 7:2, 3, 8.

Quando Samuel estava no ato de apresentar um cordeiro como holocausto, os filisteus se aproximaram para a batalha. Então o Ser poderoso que descera sobre o Sinai por entre fogo, fumo e trovões; que dividira o Mar Vermelho, e abrira caminho através do Jordão para os filhos de Israel, manifestou novamente o Seu poder. Uma terrível tempestade irrompeu sobre a hoste que avançava, e a terra ficou juncada dos cadáveres dos grandes guerreiros.

Os israelitas tinham ficado em silencioso pavor, a tremer, com esperança e medo. Quando viram a matança de seus inimigos, souberam que Deus havia aceito o seu arrependimento. Embora não estivessem preparados para a batalha, tomaram as armas dos filisteus mortos e perseguiram o exército fugitivo a Bete-Car. Esta assinalada vitória foi ganha no mesmo campo em que, vinte anos antes, Israel fora ferido diante dos filisteus, tendo sido mortos os sacerdotes, e tomada a arca de Deus. Para as nações bem como para os indivíduos, o caminho da obediência a Deus é o caminho da segurança e da felicidade, enquanto o da transgressão apenas leva ao revés e à derrota. Os filisteus foram agora subjugados de maneira tão completa que entregaram as fortalezas que haviam tomado a Israel, e abstiveram-se de atos de hostilidade por muitos anos. Outras nações seguiram este exemplo, e os israelitas desfrutaram paz até o fim da administração unipessoal de Samuel.

A fim de que essa ocasião não fosse jamais esquecida, Samuel ergueu, entre Mispa e Sem, uma grande pedra como memorial. Chamou o seu nome Ebenézer, “a pedra da ajuda”, dizendo ao povo: “Até aqui nos ajudou o Senhor”. 1 Samuel 7:12.

Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, Capítulo 56.

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