A morte de Saul

De novo foi declarada guerra entre Israel e os filisteus. “Ajuntaram-se os filisteus, e vieram e acamparam-se em Suném”, na extremidade norte da planície de Jezreel, enquanto Saul e suas forças se acamparam a poucos quilômetros, ao pé do Monte Gilboa, na extremidade sul da planície. Foi nesta planície que Gideão, com trezentos homens, pusera em fuga o exército de Midiã. Mas o espírito que animava o libertador de Israel era inteiramente diverso do que agora agitava o coração do rei. Gideão saíra forte em sua fé no poderoso Deus de Jacó; mas Saul sentia-se só e sem defesa, porque Deus o abandonara. Olhando para o exército filisteu, “temeu, e estremeceu muito o seu coração”. 1 Samuel 28:4, 5.

Saul soubera que Davi e sua força estavam com os filisteus, e esperava que o filho de Jessé aproveitasse esta oportunidade para vingar-se dos males que tinha sofrido. O rei estava em grande angústia. Fora a sua própria paixão incoerente, incitando-o a destruir o escolhido de Deus, que envolvera a nação em tão grande perigo. Ao mesmo tempo em que se ocupara na perseguição a Davi, negligenciara a defesa do seu reino. Os filisteus, tirando vantagem da condição desprotegida do reino, penetraram bem no centro do país. Assim, enquanto Satanás estivera a insistir com Saul para que empregasse toda a energia na caça a Davi, a fim de que o pudesse destruir, o mesmo espírito maligno inspirara os filisteus para que aproveitassem a oportunidade para levarem a efeito a ruína de Saul, e subverterem o povo de Deus. Quantas vezes é ainda o mesmo ardil empregado pelo adversário máximo! Ele instiga algum coração não consagrado para que acenda a inveja e a contenda na igreja, e então, tirando vantagem da condição dividida do povo de Deus, incita seus agentes a efetuar a sua ruína.

No dia seguinte, Saul deveria empenhar-se em batalha com os filisteus. As sombras de iminente condenação juntavam-se negras em redor dele; almejava auxílio e guia. Mas em vão procurou conselho da parte de Deus. “O Senhor lhe não respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas.” O Senhor nunca Se desviou de uma alma que foi a Ele em sinceridade e humildade. Por que deixou Saul voltar sem resposta? O rei, por seu próprio ato, privara-se do benefício de todos métodos de inquirir a Deus. Rejeitara o conselho do profeta Samuel; exilara a Davi, o escolhido de Deus; matara os sacerdotes do Senhor. Poderia ele esperar ser atendido por Deus, quando interrompera os condutos de comunicação que o Céu determinara? Afastara pelo seu pecado o Espírito da graça, e poderia ser atendido por sonhos e revelações do Senhor? Saul não se voltou a Deus com humildade e arrependimento. Não era o perdão do pecado e a reconciliação com Deus, o que ele buscava, mas o livramento de seus adversários. Pela sua obstinação e rebelião, separara-se de Deus. Não poderia voltar a não ser por meio do arrependimento e contrição; mas o orgulhoso rei, em sua angústia e desespero, resolveu buscar auxílio de outra fonte.

Então disse Saul aos seus servos: “Buscai-me uma mulher que tenha o espírito de feiticeira, para que vá a ela e a consulte”. 1 Samuel 28:6, 7. Saul tinha completo conhecimento do caráter da necromancia. Tinha sido expressamente proibida pelo Senhor, e fora pronunciada sentença de morte contra todos os que praticassem suas artes profanas. Durante a vida de Samuel, Saul ordenara que todos os encantadores e os que tinham espírito de feitiçaria fossem mortos; mas agora, na precipitação do desespero, recorre àquele oráculo que ele condenara como uma abominação.

Foi dito ao rei que uma mulher que possuía espírito de feitiçaria estava morando em um esconderijo, em En-Dor. Esta mulher entrara em concerto com Satanás, para entregar-se ao seu domínio, e cumprir seus propósitos; e, em troca, o príncipe do mal operava prodígios a ela, e revelava-lhe coisas secretas.

Disfarçando-se, Saul saiu de noite apenas com dois auxiliares, a fim de buscar o retiro da feiticeira. Oh! que deplorável cena! o rei de Israel levado cativo por Satanás, à sua vontade. Que vereda tão tenebrosa, para palmilharem pés humanos, aquela que fora escolhida por quem persistira em ter seu próprio caminho, resistindo às santas influências do Espírito de Deus! Que cativeiro há tão terrível como o daquele que se acha entregue ao domínio do pior dos tiranos? A confiança em Deus e a obediência à Sua vontade eram as únicas condições sob as quais Saul poderia ser rei de Israel. Se ele tivesse satisfeito estas condições durante todo o seu reinado, seu reino teria estado livre de perigo; Deus teria sido o seu guia, e seu escudo o Onipotente. Deus tivera muita paciência com Saul; e, embora sua rebelião e obstinação tivessem quase silenciado a voz divina na alma, havia ainda oportunidade para o arrependimento. Mas, quando em seu perigo se desviou de Deus para obter luz de um aliado de Satanás, rompera o último laço que o ligava ao seu Criador; colocara-se completamente sob o domínio daquele poder diabólico que durante anos tinha sido exercido sobre ele, e que o levara às bordas da destruição.

Sob o manto das trevas, Saul e seus auxiliares se encaminharam através da planície, e, passando com segurança pelas hostes filistéias, atravessaram o cume das montanhas, em direção à morada solitária da pitonisa de En-Dor. Ali a mulher com espírito de feitiçaria escondera-se para que pudesse secretamente continuar com seus profanos encantamentos. Embora disfarçado como estava, a alta estatura e porte real de Saul declararam que ele não era um soldado comum. A mulher suspeitou que seu visitante era Saul, e seus ricos presentes fortaleceram-lhe as suspeitas. Ao seu pedido: “Peço-te que me adivinhes pelo espírito de feiticeira, e me faças subir a quem eu te disser”, respondeu a mulher: “Eis aqui tu sabes o que Saul fez, como tem destruído da terra os adivinhos e os encantadores; por que, pois me armas um laço à minha vida, para me fazer matar?” Então “Saul lhe jurou pelo Senhor, dizendo: Vive o Senhor, que nenhum mal te sobrevirá por isso”. E, quando ela disse: “A quem te farei subir?” ele respondeu: “a Samuel”.

Depois de praticar seus encantamentos, ela disse: “Vejo deuses que sobem da terra. […] Vem subindo um homem ancião, e está envolto numa capa. Entendendo Saul que era Samuel, inclinou-se com o rosto em terra, e se prostrou”. 1 Samuel 28:8-14.

Não foi o santo profeta de Deus que veio com o poder dos encantamentos de uma pitonisa. Samuel não estava presente naquele antro de espíritos maus. A aparência sobrenatural apenas foi produzida pelo poder de Satanás. Ele poderia tão facilmente tomar a forma de Samuel como pôde tomar a de um anjo de luz quando tentou a Cristo no deserto.

As primeiras palavras da mulher sob o poder de seu encantamento foram dirigidas ao rei: “Por que me tens enganado? Pois tu mesmo és Saul”. 1 Samuel 28:12. Assim, o primeiro ato do espírito mau que personificou o profeta, foi comunicar-se secretamente com aquela ímpia mulher, para avisá-la do engano que fora praticado para com ela. A mensagem a Saul do pretenso profeta foi: “Por que me desinquietaste, fazendo-me subir? Então, disse Saul: Mui angustiado estou, porque os filisteus guerreiam contra mim, e Deus Se tem desviado de mim e não me responde mais, nem pelo ministério dos profetas, nem por sonhos; por isso, te chamei a ti, para que me faças saber o que hei de fazer”. 1 Samuel 28:15.

Quando Samuel vivia, Saul desprezara seu conselho, e ressentira-se de suas reprovações. Agora, porém, na hora de sua angústia e calamidade, sentia que a guia do profeta era sua única esperança; e, a fim de comunicar-se com o embaixador do Céu, recorreu em vão ao mensageiro do inferno! Saul se colocara inteiramente no poder de Satanás; e agora aquele cujo único deleite consiste em ocasionar miséria e destruição, prevaleceu-se da oportunidade para efetuar a ruína do infeliz rei. Em resposta ao agoniado rogo de Saul veio a terrível mensagem, que, pretendia-se, provinha dos lábios de Samuel:

“Por que, pois, a mim me perguntas, visto que o Senhor te tem desamparado e se tem feito teu inimigo? Porque o Senhor tem feito para contigo como pela minha boca te disse, e o Senhor tem rasgado o reino da tua mão, e o tem dado ao teu companheiro Davi. Como tu não deste ouvidos à voz do Senhor e não executaste o fervor da Sua ira contra Amaleque, por isso, o Senhor te fez hoje isso. E o Senhor entregará também a Israel contigo na mão dos filisteus”. 1 Samuel 28:16-19.

Em toda a sua conduta de rebelião, Saul fora lisonjeado e iludido por Satanás. É a obra do tentador fazer do pecado coisa insignificante, tornar o caminho da transgressão fácil e convidativo, cegar a mente às advertências e ameaças do Senhor. Satanás, pelo seu poder sedutor, levara Saul a justificar-se em desafio às reprovações e advertências de Samuel. Mas agora, em sua situação extrema, voltou-se a ele, apresentando a enormidade de seu pecado e a desesperança de perdão, para que o oprimisse até o ponto de chegar ao desespero. Nada poderia ter sido melhor escolhido para lhe destruir o ânimo e confundir o juízo, ou para o impelir ao desespero e destruição de si mesmo.

Saul estava debilitado pelo cansaço e jejum; estava aterrorizado e com a consciência ferida. Caindo a terrível predição aos seus ouvidos, o corpo cambaleou como um carvalho diante da tempestade, e caiu prostrado por terra.

A bruxa encheu-se de espanto. O rei de Israel jazia perante ela como morto. Caso ele perecesse em seu retiro, quais seriam as conseqüências para ela? Suplicou-lhe que se levantasse e tomasse alimento, insistindo que, visto haver corrido perigo de vida para lhe satisfazer o desejo, deveria ele ceder ao seu pedido, para a preservação de sua própria vida. Rogando-lhe o mesmo os seus servos, Saul cedeu finalmente e a mulher pôs diante dele a bezerra cevada, e bolos asmos preparados à pressa. Que cena! Na rústica caverna da feiticeira, em que poucos momentos antes haviam ecoado palavras de condenação, na presença do mensageiro de Satanás, aquele que fora ungido por ordem de Deus como rei sobre Israel sentava-se para comer, preparando-se para a luta mortífera do dia.

Antes do romper do dia voltou com seus auxiliares ao acampamento de Israel, para dispor-se ao conflito. Consultando aquele espírito das trevas, Saul destruíra a si mesmo. Opresso pelo terror do desespero, ser-lhe-ia impossível inspirar coragem ao seu exército. Separado da Fonte de força, não poderia guiar as mentes de Israel a olharem a Deus como seu auxiliador. Assim a predição de males operaria o seu próprio cumprimento.

Na planície de Suném e nas encostas do Monte Gilboa, os exércitos de Israel e as hostes dos filisteus empenharam-se em combate mortal. Embora a cena terrível na caverna de En-Dor lhe tivesse repelido do coração toda a esperança, Saul combateu com arrojada bravura em favor de seu trono e de seu reino. Mas foi em vão. “Os homens de Israel fugiram de diante dos filisteus, e caíram atravessados na montanha de Gilboa.” Três bravos filhos do rei morreram ao seu lado. Os flecheiros apertaram Saul. Tinha visto seus soldados caírem em redor de si, e seus filhos príncipes cortados pela espada. Ele próprio, estando ferido, não podia nem combater nem fugir. Escapar era impossível; e, resolvido a não ser tomado vivo pelos filisteus, ordenou a seu pajem de armas: “Arranca a tua espada, e atravessa-me com ela”. 1 Samuel 31:1, 4. Recusando-se o homem a erguer a mão contra o ungido do Senhor, Saul tirou sua própria vida, lançando-se sobre a espada.

Assim pereceu o primeiro rei de Israel, com o crime de suicídio em sua alma. A vida fora-lhe um fracasso, e sucumbira com desonra e em desespero, porque pusera sua vontade própria e perversa contra a vontade de Deus.

A notícia da derrota espalhou-se larga e extensamente, levando o terror a todo o Israel. O povo fugia das cidades, e os filisteus tomavam posse destas, sem serem incomodados nisso. O reino de Saul, independente de Deus, se tinha quase mostrado a ruína de seu povo.

No dia seguinte ao da luta, os filisteus, examinando o campo da batalha para roubar aos mortos, descobriram os corpos de Saul e de seus três filhos. Para completarem seu triunfo, deceparam a cabeça de Saul e o despojaram de suas armas; então a cabeça e a armadura, exalando o cheiro de sangue, foram enviadas ao país dos filisteus como troféu de vitória, “a anunciá-lo no templo dos seus ídolos e entre o povo”. A armadura finalmente foi posta no “templo de Astarote”, enquanto a cabeça foi fixa no templo de Dagom. Assim a glória da vitória foi atribuída ao poder desses falsos deuses, e o nome de Jeová foi desonrado.

Os cadáveres de Saul e seus filhos foram arrastados a Bete-Seã, cidade não distante de Gilboa, e próxima do rio Jordão. Ali foram suspensos com correntes, para serem devorados pelas aves de rapina. Mas os bravos homens de Jabes-Gileade, lembrando-se do livramento de sua cidade por Saul, em seus primeiros e felizes anos, manifestaram agora sua gratidão, retirando os corpos do rei e dos príncipes, e dando-lhes honrosa sepultura. Atravessando o Jordão à noite, “tiraram o corpo de Saul e os corpos de seus filhos do muro de Bete-Se e, vindo a Jabes os queimaram e tomaram os seus ossos, e os sepultaram debaixo de um arvoredo, em Jabes, e jejuaram sete dias”. 1 Samuel 31:9-13. Assim a nobre ação, praticada quarenta anos antes, assegurou a Saul e seus filhos o sepultamento por mãos ternas e piedosas, na hora tenebrosa da derrota e desonra.

Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, Capítulo 66.

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