Davi chamado ao trono

Baseado em 2 Samuel 2-5:5.

A morte de Saul removeu os perigos que haviam feito de Davi um exilado. Estava agora aberto o caminho para ele voltar para a sua terra. Acabando-se os dias de lamentação por Saul e Jônatas, “Davi consultou ao Senhor, dizendo: Subirei a alguma das cidades de Judá? E disse-lhe o Senhor: Sobe. E disse Davi: Para onde subirei? E disse: Para Hebrom”. 2 Samuel 2:1.

Hebrom ficava a trinta quilômetros ao norte de Berseba, e a meio caminho entre esta cidade e o futuro local de Jerusalém. Chamava-se primitivamente Quiriate-Arba, a cidade de Arba, pai de Enaque. Mais tarde se chamou Manre, e ali foi o lugar em que foram sepultados os patriarcas, a “cova de Macpela”. Gênesis 25:9. Hebrom tinha sido a possessão de Calebe, e era agora a cidade principal de Judá. Ficava em um vale rodeado de fértil região montesina e de terras produtivas. As mais belas vinhas da Palestina achavam-se em seus termos, juntamente com numerosas plantações de oliveiras e outras árvores frutíferas.

Davi e seus seguidores imediatamente se prepararam para obedecer à instrução que tinham recebido de Deus. Os seiscentos homens armados, juntamente com suas mulheres e filhos, seus rebanhos e vacas, logo se acharam em caminho para Hebrom. Entrando a caravana na cidade, os homens de Judá estavam esperando para darem as boas-vindas a Davi como futuro rei de Israel. Imediatamente se tomaram disposições para a sua coroação. “E ungiram ali a Davi rei sobre a casa de Judá”. 2 Samuel 2:4. Mas não se fez nenhum esforço para estabelecer sua autoridade, pela força, sobre as outras tribos.

Um dos primeiros atos do rei recém-coroado foi exprimir sua afetuosa consideração pela memória de Saul e Jônatas. Tendo conhecimento da ação heróica dos homens de Jabes-Gileade, retirando os corpos dos chefes mortos, e dando-lhes honrosa sepultura, enviou Davi uma embaixada a Jabes com esta mensagem: “Benditos sejais vós do Senhor, que fizestes tal beneficência a vosso senhor, a Saul, e o sepultastes! Agora, pois, o Senhor use convosco de beneficência e fidelidade; e também eu vos farei este bem”. 2 Samuel 2:5, 6. E anunciou sua subida ao trono de Judá, e pediu fidelidade por parte daqueles que haviam mostrado tão sincera lealdade.

Os filisteus não se opuseram à ação de Judá, tornando a Davi rei. Eles o haviam favorecido em seu exílio, a fim de molestar e enfraquecer o reino de Saul; e agora esperavam que por causa de sua anterior bondade para com Davi, a extensão do poder deste resultaria, afinal, em proveito deles. Mas o reinado de Davi não estaria livre de dificuldades. Com a sua coroação começou o negro registro de conspirações e rebeliões. Davi não sentou no trono de um traidor. Deus o escolhera para ser rei de Israel, e não tinha havido motivo para desconfiança e oposição. No entanto, mal havia sido sua autoridade reconhecida pelos homens de Judá, quando, pela influência de Abner, foi Isbosete, filho de Saul, proclamado rei e posto sobre um trono rival em Israel.

Isbosete não era senão um representante fraco e incompetente da casa de Saul, ao passo que Davi estava preeminentemente qualificado para assumir as responsabilidades do reino. Abner, o fator principal no levantamento de Isbosete ao poder real, tinha sido comandante-geral do exército de Saul, e era o homem mais distinto em Israel. Abner sabia que Davi tinha sido designado pelo Senhor ao trono de Israel; mas tendo-o tanto tempo afligido e perseguido, não estava agora disposto a que o filho de Jessé sucedesse no reino em que governara Saul.

As circunstâncias sob as quais Abner foi posto, serviram para desenvolver seu verdadeiro caráter, e mostraram ser ele ambicioso e sem escrúpulos. Tinha estado intimamente ligado a Saul, e fora influenciado pelo espírito do rei para desprezar o homem que Deus escolhera para reinar sobre Israel. Seu ódio aumentara pela censura incisiva que Davi lhe fizera na ocasião em que a bilha de água e a lança do rei foram tiradas de ao lado de Saul, enquanto ele dormia no acampamento. Lembrava-se de como Davi tinha bradado aos ouvidos do rei e do povo de Israel: “Porventura não és varão? e quem há em Israel como tu, por que, pois, não guardaste tu o rei teu senhor? […] Não é bom isto, que fizeste; vive o Senhor, que sois dignos de morte, vós que não guardastes a vosso senhor, o ungido do Senhor”. 1 Samuel 26:15, 16. Esta censura inflamara-se em seu peito, e resolveu executar seu propósito de vingança, e criar divisão em Israel, por meio do que poderia ele próprio exaltar-se. Empregou o representante da passada realeza para promover suas ambições e intuitos egoístas. Sabia que o povo amava Jônatas. Sua memória era acalentada, e as primeiras campanhas bem-sucedidas de Saul não foram esquecidas pelo exército. Com decisão digna de melhor causa, este líder revoltoso prosseguiu na execução de seus planos.

Maanaim, na outra margem do Jordão, foi escolhida para residência real, visto que oferecia a máxima segurança contra ataques, quer de Davi quer dos filisteus. Ali teve lugar a coroação de Isbosete. Seu reino foi primeiramente aceito pelas tribos ao este do Jordão, e estendeu-se finalmente por todo o Israel, com exceção de Judá. Durante dois anos o filho de Saul fruiu as suas honras em sua segregada capital. Mas Abner, no intuito de ampliar seu poder por todo o Israel, preparou-se para a guerra agressiva. E “houve uma longa guerra entre a casa de Saul e a casa de Davi; porém Davi se ia fortalecendo, mas os da casa de Saul se iam enfraquecendo”. 2 Samuel 3:1.

Finalmente a traição subverteu o trono que a malícia e a ambição estabeleceram. Abner, enchendo-se de ira contra o fraco e incompetente Isbosete, desertou para o lado de Davi, com o oferecimento de lhe trazer todas as tribos de Israel. Suas propostas foram aceitas pelo rei, e ele foi despedido com honra para cumprir o seu propósito. Mas a recepção favorável de tão valente e famoso guerreiro provocou a inveja de Joabe, o comandante-geral do exército de Davi. Havia uma dissensão mortal entre Abner e Joabe, tendo o primeiro morto a Asael, irmão de Joabe, durante a guerra entre Israel e Judá. Agora Joabe, vendo uma oportunidade para vingar a morte de seu irmão, e livrar-se de um que seria seu rival, aproveitou-se vilmente da ocasião para armar cilada a Abner e matá-lo.

Davi, ouvindo falar deste traiçoeiro assalto, exclamou: “Inocente sou eu, e o meu reino, para com o Senhor, para sempre, do sangue de Abner, filho de Ner. Fique-se sobre a cabeça de Joabe e sobre toda a casa de seu pai”. 2 Samuel 3:28, 29. Em vista da condição incerta do reino, e do poderio e cargo dos assassinos — pois que o irmão de Joabe, Abisai, estivera unido com ele — Davi não pôde punir o crime com o justo castigo; contudo, manifestou publicamente sua aversão àquela cena de sangue. O sepultamento de Abner foi acompanhado de honras públicas. Exigiu-se que o exército, com Joabe à sua frente, tomasse parte nos atos de lamentação, com vestes rotas e vestidos de saco. O rei manifestou sua dor, observando um jejum no dia do sepultamento; acompanhou o séquito fúnebre como o principal pranteador; e junto à sepultura pronunciou uma homenagem que era uma censura cortante aos assassinos. E o rei, pranteando a Abner, disse: “Não morreu Abner como morre o vilão? As tuas mãos não estavam atadas, nem os teus pés carregados de grilhões de bronze, mas caíste como os que caem diante dos filhos da maldade!” 2 Samuel 3:33, 34.

O magnânimo reconhecimento por parte de Davi, com relação a um que fora seu inimigo atroz, conquistou a confiança e a admiração de todo o Israel. “O que todo o povo entendendo, pareceu bem aos seus olhos, assim como tudo quanto o rei fez pareceu bem aos olhos de todo o povo. E todo o povo e todo Israel entenderam naquele mesmo dia que não procedera do rei que matassem a Abner, filho de Ner.”

No círculo particular dos conselheiros e assistentes que lhe mereciam confiança, o rei falou do crime, e reconhecendo sua própria incapacidade de punir os assassinos como o desejava, entregou-os à justiça de Deus: “Não sabeis que hoje caiu em Israel um príncipe e um grande? Que eu ainda sou tenro, ainda que ungido rei; estes homens, filhos de Zeruia, são mais duros do que eu. O Senhor pagará ao malfeitor conforme a sua maldade”. 2 Samuel 3:36-39.

Abner tinha sido sincero em seus oferecimentos e representações a Davi; todavia seus intuitos eram vis e egoístas. Opusera-se persistentemente ao rei por Deus designado, na expectativa de conseguir honra para si. Era o ressentimento, o orgulho ferido, e a paixão o que o levou a abandonar a causa que durante tanto tempo havia servido; e, desertando para o lado de Davi, esperava receber a mais alta posição de honra ao seu serviço. Se ele tivesse sido bem-sucedido em seu propósito, seus talentos e ambição, sua grande influência e falta de piedade teriam feito perigar o trono de Davi e a paz e a prosperidade da nação.

“Ouvindo pois o filho de Saul que Abner morrera em Hebrom, as mãos se lhe afrouxaram; e todo o Israel pasmou”. 2 Samuel 4:1. Era evidente que o reino não poderia manter-se por muito tempo. Logo outro ato de traição completou a queda do poder decadente. Isbosete foi miseravelmente assassinado por dois de seus capitães, os quais, decepando-lhe a cabeça, levaram-na apressadamente ao rei de Judá, esperando assim captar o seu favor.

Compareceram perante Davi com a sangrenta testemunha de seu crime, dizendo: “Eis aqui a cabeça de Isbosete, filho de Saul, teu inimigo, que te procurava a morte; assim o Senhor vingou hoje ao rei meu senhor de Saul e da sua semente.” Mas Davi, cujo trono o próprio Deus estabelecera, e a quem Deus livrara de seus adversários, não desejava o auxílio da traição para estabelecer seu poderio. Contou aos assassinos a condenação que atingira aquele que se vangloriou de matar Saul. “Quanto mais”, acrescentou ele, “a ímpios homens, que mataram um homem justo em sua casa, sobre a sua cama; agora, pois, não requereria eu o seu sangue de vossas mãos, e não vos exterminaria da Terra? E deu Davi ordem aos seus mancebos que os matassem. […] Tomaram, porém, a cabeça de Isbosete, e a sepultaram na sepultura de Abner, em Hebrom”. 2 Samuel 4:11, 12.

Depois da morte de Isbosete, houve um desejo geral entre os principais homens de Israel de que Davi fosse rei de todas as tribos. “Então todas as tribos de Israel vieram a Davi, a Hebrom, e falaram, dizendo: Eis-nos aqui, teus ossos e tua carne somos.” Declararam: “Eras tu o que saías e entravas com Israel; e também o Senhor te disse: Tu apascentarás o Meu povo de Israel, e tu serás chefe sobre Israel. Assim, pois, todos os anciãos de Israel vieram ao rei, a Hebrom; e o rei Davi fez com eles aliança em Hebrom, perante o Senhor”. 2 Samuel 5:1-3. Assim, pela providência de Deus, abrira-se-lhe o caminho para ir ao trono. Ele não tinha nenhuma ambição pessoal a satisfazer, pois não procurara a honra a que fora levado.

Mais de oito mil dos descendentes de Arão, e dos levitas, serviam a Davi. A mudança nos sentimentos do povo foi assinalada e decisiva. A revolução foi silenciosa e digna, adaptada à grande obra que estavam a fazer. Quase meio milhão de almas, os anteriores súditos de Saul, congregaram-se em Hebrom e arredores. As próprias colinas e vales pareciam vivas com as multidões. A hora da coroação foi designada; o homem que fora expulso da corte de Saul, que fugira às montanhas e colinas e às cavernas da terra, a fim de preservar a vida, estava prestes a receber a mais alta honra que ao homem pode ser conferida por seus semelhantes. Sacerdotes e anciãos, vestidos nos trajes de seu ofício sagrado; oficiais e soldados com lanças e capacetes resplandecentes; e estrangeiros, de longas distâncias, ali se achavam para assistirem à coroação do rei eleito. Davi estava vestido com os trajes reais. O óleo sagrado foi-lhe posto sobre a fronte pelo sumo sacerdote; pois a unção feita por Samuel fora profética em relação ao que teria lugar no início das funções do rei. Chegado era o tempo, e Davi, mediante uma cerimônia solene, foi consagrado para o seu ofício como representante de Deus. O cetro foi-lhe posto nas mãos. O concerto de sua justa soberania foi escrito, e o povo apresentou seus compromissos de fidelidade. Colocou-se-lhe na fronte o diadema, e estava terminada a cerimônia da coroação. Israel tinha um rei de indicação divina. Aquele que tinha esperado pacientemente pelo Senhor, viu cumprida a promessa de Deus. “E Davi se ia cada vez mais aumentando e crescendo, porque o Senhor Deus dos exércitos era com ele”. 2 Samuel 5:10.

Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, capítulo 69.

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