A redundância das semanais

Para Krauss o Universo teria surgido do nada – é preciso ter fé para crer em tal hipótese

Mais uma vez, uma revista semanal brasileira volta à carga contra o teísmo (leia-se religião judaico-cristã) dando vez e voz a um ateu raivoso. No revezamento redundante de sempre (perdoe-me a redundância), a vez foi da revista Época, com a entrevista “Deus se tornou redundante”. E o pregador, digo, entrevistado escolhido pela Época foi o cosmologista ateu Lawrence Krauss, de 57 anos, autor, entre outros, do livro Um Universo a Partir do Nada (ainda inédito no Brasil, mas, a julgar pelo padrão comportamental das grandes editoras nacionais, isso será por pouco tempo). O entrevistador é o jornalista Peter Moon, e isso já me diz muita coisa. Em 1999 – nunca me esqueço e guardo a revista até hoje – Moon, numa matéria publicada na IstoÉ, escreveu que acreditar na semana da criação e em Adão e Eva é crer numa “bobagem sem tamanho”. Portanto, a entrevista da revista Época desta semana é mais uma conversa entre amigos ateus do que uma análise de ideias e questionamento crítico. Fica na cara que as perguntas são como bolas posicionadas no pé do atacante, bastando-lhe apenas chutar em direção ao gol.

Krauss começa fazendo uma afirmação pela metade. Diz que Copérnico, Galileu e Newton “substituíram o milagre metafísico pela realidade física”, dando a entender que isso havia contribuído para deixar Deus desnecessário. Mas Krauss ignora ou omite a informação de que esses primeiros cientistas e muitos outros eram profundamente religiosos e faziam ciência (na verdade, a inventaram) com o intuito de entender como Deus havia criado o Universo. Newton atribuía a perfeição do cosmos ao Pantocrator, ou seja, ao Todo-Poderoso Criador.

Para Krauss, “a cosmologia do século 20 chegou ao ponto em que podemos falar sobre a criação e a evolução de todo o Universo, um tema que não é mais do domínio exclusivo da teologia”. O ufanismo (ou cientificismo) é tanto que o cientista afirma, também, que a ciência finalmente é capaz de explicar como o Universo surgiu. Será? Então, por que, logo em seguida, ele admite: “Sabemos que não temos todas as respostas para os mistérios da natureza. Sabemos que não temos todas as respostas e que as respostas que temos não são verdades definitivas.” Bem, se é assim, por que devo crer que seja verdade o que ele diz sobre a origem do Universo e sobre Deus? Com tamanho índice de incerteza, não se torna temerário – para não dizer arrogante – afirmar que “Deus se tornou redundante” ou que “os milagres se tornaram obsoletos”?

Krauss e Moon não querem crer no Criador, embora falem em “criação” do Universo. Mas criação a partir do quê? Para ser coerente, o naturalista ateu deve responder: a partir do nada. Mas o nada, para um cosmologista, não se trata de absolutamente nada, e aí está a contradição. Krauss diz que, “a partir do nada, o Universo teria evoluído por meio de processos naturais que levaram à formação de átomos, moléculas, estrelas, planetas, galáxias e vida”. Alguém precisa dizer para ele que processos naturais não criam ordem a partir do caos e são incapazes de originar informação complexa e específica necessária para o surgimento da vida. Mas deixemos isso para os biólogos. Voltemos ao “nada”.

Krauss e os demais cientistas naturalistas sabem que nada provém do nada. Por isso mesmo eles definem “nada” de maneira diferente do senso comum. Como explica Krauss, “o vácuo espacial não é vazio”, “nele partículas pipocam a partir do nada e desaparecem instantaneamente”. É o que alguns chamam de “vácuo quântico”, ou seja, é tudo, menos “nada”. Assim, a questão permanece: De onde vêm essas partículas supostamente precursoras da matéria e da vida? Se antes do Universo havia alguma coisa (partículas), que tipo de “nada” é esse? O fato é que, à semelhança do título Deus, um Delírio, de Dawkins, o título do livro de Krauss é pura propaganda enganosa. Sim, porque nem ele mesmo crê no nada absoluto.

Moon, que não é bobo, desvia o assunto delicado e parte para a metafísica, ao perguntar: “Aconteceu apenas uma vez? O pipocar de partículas [note que o jornalista já assume essa hipótese como fato] não poderia ter criado outros universos?” Bola no pé, novamente. Resposta de Krauss: “Sim, tudo leva a crer [olha a fé aí!] que é o caso, embora não tenhamos como provar. Podemos viver num ‘multiverso’. Nosso Universo pode ser apenas um entre infinitos outros.” Ora, posso dizer, então, que podemos viver num único Universo criado por Deus, e há muito mais evidências nessa direção do que a favor do tal “multiverso” totalmente hipotético. Mas por que essa hipótese é interessante para o naturalista?

Simples: é muito difícil (senão impossível) explicar tamanha ordem (princípio antrópico) num universo que sugere design, desde o âmbito macro até o micro; num universo que parecia já estar esperando por nós. Mas, se houvesse milhões de universos, a resposta naturalista seria mais ou menos esta: “Numa infinidade de universos surgidos ao acaso, pelo menos em um deles a vida apareceu. Por quê? Não sabemos, mas se estamos aqui, é porque surgiu.” O argumento é circular (tautológico) e bem conveniente, elaborado para fugir à constatação de que um Universo foi criado para funcionar como funciona e manter a vida.

Krauss também acusa os religiosos de nunca tocar na questão da “criação de Deus”. Os religiosos nunca deixam de admitir o mistério. Mas uma coisa é certa: eles não precisam explicar a criação de Deus. O silogismo para essa questão é o seguinte: (1) tudo o que teve um começo teve uma causa; (2) o Universo teve um começo (Krauss e Moon admitem isso); portanto (3) o Universo teve uma causa. Deus, segundo a Bíblia, não teve começo e não tem fim, portanto, não precisa de e não tem uma causa.

Outra conclusão de Krauss, a partir de sua visão de mundo: “Justamente porque a vida é efêmera, todos nós deveríamos tirar o máximo proveito do breve momento que desfrutamos sob o Sol.” Trata-se, na verdade, da máxima: “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos.” Quanto significado para a vida! Viemos do nada, vamos para o nada e devemos aproveitar (leia-se “pão e circo”) nossos poucos e sofridos anos de existência…

Mas eis que tudo se torna claro quando lemos a respeito da concepção que Krauss mantém sobre Deus: “Prefiro viver num universo onde a vida é breve e preciosa a noutro onde o sentido da vida nos é ditado por um Saddam Hussein dos céus! […] Não posso provar sem sombra de dúvidas que Deus não existe, mas posso afirmar que preferiria muitos mais viver num universo em que ele não exista.”

Eu também preferiria não viver num universo regido por um Deus ditador, mas não é esse o Deus apresentado pela Bíblia, quando devidamente estudada. Krauss crê num espantalho e orienta sua cosmovisão a partir disso. Ele se diz ateu, mas odeia Deus! Só com terapia para resolver um problema desses. Certa vez, Charles Chaplin disse: “Por simples bom senso, não acredito em Deus; em nenhum.” Não concordo com ele, evidentemente, mas uma coisa é certa: Chaplin era coerente. Não é o caso de Krauss. Ele crê num deus; num deus idealizado que ele odeia. Vai que o problema é a relação dele com o pai… (Armand Nicholi explica isso em seu ótimo livro).

“Deus se tornou irrelevante para a humanidade?”, é a última pergunta/bola no pé feita por Moon. E Krauss não perde o “passe”, aproveitando para reafirmar sua crença: “Se existisse um Deus, ele certamente teria deixado de se preocupar com os desígnios do cosmos logo depois de cria-lo, há 13,7 bilhões de anos, pois tudo o que aconteceu desde então pode ser explicado pela ciência. Não, Deus talvez não seja irrelevante. Ele é redundante.”

Por que devo crer nas conclusões de um cientista irado com um deus estereotipado, que admite que a ciência não tem respostas para tudo e que acredita em hipóteses metafísicas sem confirmação empírica?

Se revistas como Época e Veja fossem passarelas, por elas só desfilariam “modelos” defensores do ateísmo, e isso vem de longa data. E não adianta sugerir entrevistas com pensadores teístas, como já fiz tantas vezes. A passarela já tem dono e a redundância tende a continuar.

Em tempo: Por que as revistas Época e Veja não publicam entrevista com um ateu como este (clique aqui para saber um pouco sobre o livro dele), que ousa pensar de maneira diferente do mainstream científico/filosófico/editorial? Por que as grandes editoras nacionais não publicam livros desse tipo, mas adoram publicar qualquer rascunho de gente como Richard Dawkins? Compromisso com o naturalismo filosófico que posa de verdade? Interesse unicamente nos lucros advindos de uma literatura polêmica carente de reflexões profundas?

Michelson Borges, jornalista e mestre em teologia
Seu blog: www.criacionismo.com.br

Sobre Blog Sétimo Dia

“SOLO CHRISTO”, “SOLA GRATIA”, “SOLA FIDE”, “SOLA SCRIPTURA” (salvação somente em Cristo, somente devido à graça de Deus, somente pela instrumentalidade da fé, somente com base na Escritura)
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2 respostas para A redundância das semanais

  1. Luis Chacon disse:

    Ainda não li tudo mas gostaria de já deixar um comentário antes que venha outra bomba e eu esqueça: O pensamento desse tal de Krauss é o mesmo que qualquer bandido, marginal, assassino, tem, não? Algo como: “não tenho nada a perder nem a ganhar” e ai correm para o lado errado e fazem o que fazem. O pensamento de quem crê em Deus é outro “Mas há um Deus no céu, o qual revela os mistérios….:” (Daniel 2 : 28). Vejo muitas vezes que as críticas dos ateus tem um lado de bullying, menosprezo, uma indiferença que nós crentes não chegamos a ter dos ateus.
    Vejo que este Krauss tem a soberba, arrogância infladíssimas, para começar, se ele fosse honesto, sim honesto, leria o que ele mesmo escreve ou fala e faria uma revisão, assim como fez o blog: se eu não tenho certeza de algo, como posso afirmar? É como não ter visto um crime e acusar um assassino (só para tentar ilustrar (mentalmente)), e é por isso que todos essas coisas se chamam Teorias: da Evolução, do Big Bang, do Aquecimento Global, e outras que o diabo vem inventando para pegar os desavisados.
    Fica fácil fazer uma entreista de “comadres” quero ver o Kraussão hehe, debater com um criacionista, crente em Deus (obviamente) que conheça muito (acho que para debater com Krauss talvez nem precise conhecer tanto, mas em fim…).
    Senti que o irmão do blog ficou um pouco, vamos dizer… chateado. Relaxa, Por isso há um Deus no céu.
    A lógica desse Krauss é primária, desculpe, mas é ridícula, pré-básica, para a resposta à pergunta: ““Deus se tornou irrelevante para a humanidade?” (que por sí só não tem nada a ver é uma forcada de barra tremenda), Krauss tenta interpretar as idéias de Deus sem mesmo crer em… Deus.
    Como cientista e alguém que não acredita em Deus a resposta deveria ser no mínimo algo como: “veja, não sei se Deus se tornou irrelevante porque não creio, bla bla bla bla, mas ele segue com a desonestidade. Dar ouvidos a um… desculpe, ignorante, no sentido de conhecimento do que se propõe a falar é a mesma coisa que me convidar para debater a vida das minhocas em sociedade. Abraço a todos

  2. Leidson Rodrigues disse:

    Luis Chacon concordo plenamente com você, irmãozinho do blog relaxe, a essas pessoas ou seja os ateus cabe a nos ingnorar-los, pois como todos sabem o ESPIRITO SANTO desde o nosso nascimento vem trabalhando em nois para nos levar para DEUS , mas se a pessoa não quer enchergar, e se omite as verdades de DEUS, se tornando uma pesso totalmente desprovida de fé, chega um ponto em que não tem mais jeito pra essa pessoa e o ESPIRITO SANTO se afasta dessa pessoa, ou seja o inimigo já se apoderou dela de tal forma que não tem mais o que se fazer com essa pessoa pois ela já decidio o lado em que vai fica, outra coisa que nos cabe é vigiar e orar para que não venhamos a ser enganados pelas armadilhas do inimigo porque a biblia fala que no final dos tempos ele enganará a muitos se possível até os próprios eletitos de DEUS então irmãos força, firme e muita fé pois todos também sabemos que o justo viverá pela fé. amém!

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