Nana, neném…

Dormir é um pesadelo para muitas crianças. Algumas, por excesso de energia, querem que as atividades e descobertas do dia continuem infinitamente (ou, pelo menos, até o ponto do desmaio). Muitas não escondem seu terror diante da escuridão da noite, do fato de ficar sozinhas em seus quartos e da vulnerabilidade a que se sentem expostas. Tão conhecido quanto a resistência das crianças ao sono é o poder da música para acalmar e produzir uma sensação de aconchego e bem-estar, que favorece o descanso das crianças. Por isso, em muitas culturas ao redor do mundo, surgiram canções de ninar ou acalantos. São melodias simples, semelhantes a sussurros, que induzem ao sono. Na Europa, elas inspiraram até mesmo o trabalho de grandes compositores, como Chopin, Liszt e Brahms, que criaram berceuses (canções para o berço) cantadas até hoje.

Em muitos países, os acalantos têm letras inocentes, de tom angelical e, em alguns casos, são praticamente preces. A letra adaptada à famosa berceuse de Brahms, talvez uma das mais conhecidas, tem este sentido: Deseja uma boa noite, guardada por anjos; um bom despertar se for da vontade de Deus, na manhã seguinte; um sono abençoado e doce, no paraíso desejado. Suas versões em inglês e português mantêm o mesmo teor. Ao redor do mundo, muitas são as referências ao mesmo tema.

No Brasil, a versão da berceuse de Brahms apresenta alguns elementos interessantes para análise:

Já brilhou, lá no céu, a primeira estrelinha,
Vai dormir [ou nanar], ó meu bem,
Que a mamãe vai também.
Vai dormir e sonhar, e sonhar com os anjos,
Vai dormir [ou nanar], ó meu bem,
Que a mamãe vai também.

Alguns elementos importantes são facilmente observados: (1) dormir é um ato diário e natural, que acompanha o ciclo do tempo – as estrelas brilham (ou seja, anoiteceu) e, portanto, é hora de dormir. (2) Dormir é uma atividade inerente a todos. Afinal, a criança vai dormir, e a mamãe vai também. (3) O sono é um momento agradável, de sonhar com os anjos. (4) A canção termina com uma afirmação repetida, de que a criança não será a única a fazer isso – a mamãe vai também.

A EXCEÇÃO

Entretanto, a berceuse de Brahms e acalantos do mesmo teor não são os mais populares no Brasil. As canções de ninar brasileiras mais conhecidas não contêm esse convite ao ato natural do sono. Ameaças são frequentes na mais popular das cantigas de ninar:

Nana, neném, que a cuca vem pegar,
Papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar. [Em algumas versões “passear”]
Bicho papão, sai de cima do telhado,
Deixa o [nome da criança] dormir sossegado!

De forma antagônica à canção analisada anteriormente, percebe-se o seguinte em “Nana, neném”: (1) Ameaça – em vez de tratar o sono como algo natural, ao qual se convida a participar, ele é um ato forçado, que a criança deve fazer ou “a Cuca vem pegar”. (2) Sensação de desamparo – enquanto a criança é ameaçada pela Cuca, seu pai (símbolo máximo de força) foi pra roça, e a mamãe (símbolo máximo de dedicação e proteção) foi passear ou, na melhor das hipóteses, trabalhar. (3) Além da cuca rondando, há um bicho-papão em cima do telhado prestes a devorar a criança. (4) Como alguém pode dormir sossegado sabendo que está à mercê de uma cuca e de um bicho-papão e, além disso, abandonado por pai e mãe?

A CULTURA DO CASTIGO E PUNIÇÃO

A “ideologia” presente nessas canções de ninar é apontada, sociologicamente, como uma vertente do pensamento religioso não protestante. Nas culturas de origem protestante, são comuns as canções que incentivam as crianças a gostar de si mesmas e desfrutar do momento do sono, enquanto nos países de éthos (costume) católico, como Brasil, Chile, Portugal e Espanha, é comum as mães usarem cantigas amedrontadoras, que ameaçam as crianças que não apresentam o comportamento desejado. Essa atitude, questionável por si só, torna-se ainda mais relevante quando consideramos que a mesma mentalidade permeia a ação educativa. Nesses lugares existe a tendência de, em vez de conscientizar, obter a obediência por meio da punição; em vez de parceria, ameaças.

No Brasil, o sincretismo religioso uniu, na cultura popular, dois elementos que aparecem em muitas festas e crendices, claramente observados também nas canções de ninar: a mentalidade da coerção associada à ação de seres sobrenaturais (cuca, bicho-papão); uma combinação poderosa para apavorar crianças e incutir a submissão pela ameaça.

O ANIMISMO E O MEDO

É importante também ressaltar que o uso das canções de ninar costuma se iniciar ao nascimento e permanecer durante a primeira infância. Parte desse período coincide com a fase do animismo, pela qual a criança passará naturalmente. Ela imaginará, por conta própria, uma casa cheia de animais, monstros dentro do armário ou sob a cama, brinquedos que ganham vida durante a noite… Com atitude serena e apropriada (não desconsiderando nem incentivando) por parte dos pais, essa fase deverá se manifestar e passar, como todas as outras da vida. No entanto, caso seja reforçada pela apresentação de estímulos animísticos (como os seres sobrenaturais das cantigas e outras histórias), a fase do animismo poderá se estender além do necessário.

No decorrer dessa fase, a criança ainda não dissocia a realidade da fantasia e, honestamente, uma cuca ou bicho-papão podem parecer muito reais, principalmente quando surgem os barulhos e sombras da noite. Não é de admirar que o momento que deveria ser de tranquilidade e descanso torne-se, muitas vezes, um verdadeiro terror para a criança e a família.

CUIDADO OU EXAGERO?

O fato é que, por todas as razões expostas, o tema gera controvérsia. Existem grupos que, em defesa da manutenção da cultura popular, defendem o uso desses acalantos. Entre os argumentos, há este: Como são entoados desde o nascimento, quando a criança ainda não decifra o significado da linguagem, a melodia dessas canções seria associada ao aconchego e à tranquilidade do colo materno, tornando sua letra irrelevante. Entretanto, outros autores posicionam-se contra a manutenção dessas cantigas. Segundo estes, apenas o sadismo adulto justificaria o uso de tais canções, capazes de gerar traumas e consequências nefastas.

É possível que a continuidade do hábito deva-se, muito mais, à falta de reflexão a respeito das tradições transmitidas de geração em geração do que ao sadismo. No entanto, podemos, a partir daí, analisar que a cultura é a forma que molda a mente de um povo. Seus pressupostos, mesmo sutis, induzem à adoção de paradigmas que se estendem aos mais diversos espectros da vida – a maneira de enfrentar os desafios, as formas de solucionar os pequenos e grandes conflitos, a relação com o trabalho e o outro, etc. Por isso, é importante analisarmos não apenas as canções de ninar, mas os valores expressos em diversas manifestações culturais. A perpetuação de valores contraproducentes tem consequências pessoais e sociais.

Correr o risco de enfurecer os defensores da cultura popular não pode ser um motivo para deixar de refletir sobre essas pequenas tradições, que, embora façam parte do cotidiano há gerações, suscitam polêmica e merecem ser consideradas atenciosamente quanto à sua continuidade. Longe de encerrar o assunto, essa consciência – a da necessidade de reflexão – pode ser um ponto de partida para a reflexão.

Dica de música

Experiências têm demonstrado que mesmo no ventre a criança já ouve a música e reage a ela. É bastante conhecido o fato de que a música feita de sons suaves e melodiosos ajuda a transmitir calma. Este CD traz 10 canções arranjadas bem no estilo infantil, com o objetivo de transmitir calma, paz e aconchego. Desde o ventre e depois de nascer, mesmo muito cedo, a criança obterá os benefícios da boa música. Em qualquer hora, estas músicas farão bem para o bebê e para sua mamãe.

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Lilian Larroca

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“SOLO CHRISTO”, “SOLA GRATIA”, “SOLA FIDE”, “SOLA SCRIPTURA” (salvação somente em Cristo, somente devido à graça de Deus, somente pela instrumentalidade da fé, somente com base na Escritura)
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