O Movimento da Carne Santa no Adventismo – Parte 01

O objetivo da chamada de Israel como povo de Deus na Terra, era para levar outros a temerem à Deus e dar-Lhe glória, em preparação para a primeira vinda de Jesus. No entanto, ao longo da sua existência os antigos israelitas e os seus líderes sucumbiram à sedução dos falsos ensinos e da falsa adoração. O bezerro de ouro no Sinai, o fogo estranho de Nadabe e Abiú, a sedução da idolatria pelos moabitas, e a tolerância do culto a Baal, durante o reinado de Acabe, são todos exemplos da entrega de Israel à falsa adoração. Surpreendentemente, todas estas apostasias, vieram apesar das claras advertências do Senhor, como as de Deuteronômio 12:30-31, onde Ele explicitamente condena o modelo de culto israelita depois que praticado pelas nações vizinhas.

Para estimular a igreja do Novo Testamento a ter uma maior fidelidade espiritual do que a de seus antepassados, Paulo relembra seu legado espiritual e explica, em 1 Coríntios 10:11: “Ora, todas estas coisas aconteceram a eles como exemplos e foram escritas para nossa admoestação, sobre quem os fins dos séculos têm chegado” (NKJV). Paulo entendeu que aprender as lições da liderança de Deus no passado é essencial para o sucesso espiritual no futuro.

Esse princípio bíblico é válido para o povo remanescente de Deus no fim dos tempos. Como adventistas do sétimo dia, tivemos a nossa quota de deficiências registradas para nossa admoestação. Esta é a história de um exemplo disto, um breve interlúdio de falsa adoração em nossa igreja conhecido como o Movimento da Carne Santa.

Primórdios do Movimento da Carne Santa

Nascido de uma devota mãe Metodista e de um pai Batista e veterano da Guerra Cívil, S. S. Davis foi criado em Indiana e aceitou a mensagem adventista em 1886 aos 32 anos de idade. Nos anos seguintes, ele trabalhou como colportor no oeste de Nebraska. No entanto, ele voltou para Indiana em 1893 para cuidar de sua mãe doente e escapar da situações de seca nas planícies ocidentais. Mais tarde, naquele mesmo ano, foi concedida a ele pela Conferência de Indiana uma licença para pregar, e em 1895, ele foi ordenado ao ministério em tempo integral, e começou a divulgar um programa para a comunidade chamado de “Helping Hand Mission”, em Evansville, Indiana. A partir deste posto, Davis distribuía alimentos e roupas, realizava serviços religiosos e estudos bíblicos regulares.

Durante esse tempo, um renomado pastor adventista, AF Ballenger, estava excursionando pelas reuniões campais e de trabalhadores no Centro-Oeste, proclamando uma mensagem muito distinta. Ele ensinava que as pessoas precisavam ser inteiramente sem pecado, até mesmo a sua própria natureza, a fim de receber a efusão plena do Espírito Santo. O título de sua palestra foi “Recebei o Espírito Santo”, uma mensagem na qual Davis aparentemente se inspirou.

Em agosto de 1898, Davis relatou na “The Advent Review and Sabbath Herald” que muitos batismos haviam sido solicitados, nos dois dias anteriores, enquanto “O Espírito era derramado em grande medida”. Ele continuou dizendo: “Parecia que estávamos todos cheios ao máximo de nossa capacidade de receber. Chegamos ao momento da mensagem, “Recebei o Espírito Santo”, e nós estávamos realmente tendo experiências pentecostais dos tempos apostólicos.”1

Curiosamente, Davis tinha assistido a uma das reuniões de Ballenger, em algum momento entre 1897 e 1898, e de acordo com a filha de Davis, embora ele tivesse sido um pregador licenciado desde 1893, Davis nunca tinha falado desse demonstrativo “poder” do Espírito Santo até 1898, depois que ele participou das reuniões de Ballenger.2

Ao mesmo tempo em que estava sendo influenciado pela mensagem de Ballenger, Davis entrou em conexão com alguns cristãos pentecostais. Em uma conversa com um administrador Adventista durante esse tempo, Davis disse: “Irmão. . ., Eles têm o “espírito”, e nós temos a verdade, e se tivéssemos o “espírito” como eles têm, com a verdade nós poderíamos fazer muitas coisas “3.

Foi em Dezembro do próximo ano, no auge de seu interesse no ensino de Ballenger e da adoração carismática de seus amigos pentecostais, que Davis foi contratado como um reavivalista na Conferência de Indiana pelo, recém-eleito presidente da Conferência, R. S. Donnell. Veremos em breve porque este é considerado como o início oficial do movimento da carne santa. Tendo dois outros ministros e suas mulheres junto com ele, Davis começou a viajar em torno da Conferência de Indiana, reavivando o que ele considerou o “frio, apóstata” das igrejas adventistas, com a sua poderosa mensagem do Espírito Santo, os resultados do que viu foram muitas igrejas “unidas” com “gritos de vitória.” 4

Por Dentro do Movimento da Carne Santa: Mensagem e Método

Neste momento você deve estar se perguntando, e daí? Cem anos atrás, alguns adventistas em Indiana realmente ficaram animados sobre Jesus e disseram: “Amém” na igreja. Qual é o problema? Na verdade, Não é uma coisa boa? Não ouvimos as pessoas murmurarem sobre a falta de zêlo no adventismo de hoje e olharem ao redor para outras denominações para descobrir o que as faz tão animadas e em chamas por Jesus? Para entender melhor o que estamos discutindo, é preciso dissecar dois componentes-chave do movimento da carne santa: sua mensagem e seu método.

A Mensagem da Carne Santa

Muitas vezes, quando falamos do movimento carne santa hoje, é no contexto do culto carismático. No entanto, a questão central com o movimento da carne santa não era sobre as suas experiências de adoração carismática, embora tenham sido definitivamente um elemento essencial do movimento. A singularidade real no movimento da carne santa, não foi primariamente seu estilo de adoração, mas sim a sua compreensão da natureza do homem, da natureza de Cristo, da natureza do pecado e da natureza da nossa salvação.

No entendimento da carne santa, as pessoas são pecadoras, independentemente de terem cometido ou não pecados. Elas são pecaminosas simplesmente porque possuem uma natureza humana pecaminosa. Como os defensores viram, ter uma natureza humana pecaminosa, nos faz pecadores:Quando Cristo veio a esta terra, Ele não poderia ter compartilhado a nossa natureza decaída, mas deve ter sido isento, tendo a natureza sem pecado de Adão antes da queda. Neste parecer desta natureza especial, foi possível para Jesus viver em um mundo pecaminoso, enquanto na verdade não tinha uma inclinação hereditária interior para o pecado. RS Donnell acabaria por explicar desta maneira: “Cristo estava onde Adão esteve, e Adão esteve lá, sem uma mancha do pecado. Assim, Cristo deve ter ficado onde estava Adão antes de sua queda, ou seja, sem uma mácula de pecado “5.

Para os defensores da carne santa, a única solução lógica para a condição humana, era uma substituição completa da nossa própria natureza. A única maneira de sermos chamados sem pecado (justificados) e permanecermos sem pecado (santificados), seria entregar nossa natureza decaída e aceitar a natureza sem pecado de Cristo que não tinha inclinação para o pecado, um processo de transformação que acabou apelidado de “limpeza” ou “experiência do Jardim”.

Os adeptos da carne santa sustentavam que a partir do momento dessa experiência, eles deixariam de ser interiormente tentados a pecar. Assim, qualquer pensamento, sentimento, idéia ou inclinação para qualquer comportamento que viesse de dentro deles era dito como sendo santo e bom. Acreditava-se que em seguida, experimentariam a total liberdade de poder fazer qualquer coisa, porque a natureza seria a de Cristo e Ele nunca sentiu vontade de fazer nada de errado!

O Método da Carne Santa

A mensagem singular do movimento da carne santa necessitava de um método singular de evangelismo. A fim de provocar essa mudança de natureza, uma pessoa devia entregar todo o seu ser a Cristo, numa experiência de adoração de corpo inteiro. Tentando ganhar esta “experiência do Jardim” que lhes daria carne santa, as pessoas se ajuntavam em reuniões nas quais haviam longas orações, músicas instrumentais estranhas e altas, e animada e estendida pregação histérica. Eles eram levados a buscar uma experiência de demonstração física. Os bumbos e os tamboris ajudavam neste intuito.” 6

Na época, a adoração adventista era caracterizada pelo serviço de adoração solene e sóbrio que não eram sensacionais em sua natureza. Pregações altas e emocionalmente carregadas conduzidas por músicas não eram típicas. Porém, durante o tempo do movimento da carne santa, tudo mudou. Tomando emprestado o modelo da banda do exército da salvação que era popular na época, Davis e sua equipe de reavivamento transformaram o culto adventista tipicamente cognitivo em uma experiência de adoração patentemente Pentecostal, em toda a esperança de levar pessoas a se entregarem de corpo inteiro para Cristo, que iria transformar a natureza pecaminosa delas na natureza sem pecado de Cristo.

Na Parte II deste artigo, vamos ver o crescimento explosivo do movimento da carne santa, o seu fim abrupto na quarta-feira de 17 de abril de 1901, e as lições que podemos aprender com este fascinante capítulo da história adventista.

1 The Advent Review and Sabbath Herald, Aug. 23, 1898, p. 543.
2 Viola Davis Hopper, as cited by William H. Grotheer, The Holy Flesh Movement, 1899-1901 (Florence, Miss.: Adventist Laymen’s Foundation of Mississippi, 1973), p. 6.
3 Jesse E. Dunn, as cited by Grotheer, p. 7.
4 The Advent Review and Sabbath Herald, Apr. 10, 1900, p. 237.
5 R. S. Donnell, as cited by Dave Fiedler, Hindsight: Seventh-day Adventist History in Essays and Extracts (Harrah, Okla.: Academy Enterprises, 1996), pp. 135, 136.
6Arthur L. White, Ellen G. White: The Early Elmshaven Years, 1900-1905 (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1981), vol. 5, p. 101.

Artigo escrito pelo pastor Kameron DeVasher publicado na Adventist Review de Setembro/2010. Crédito da tradução: Blog Sétimo Dia https://setimodia.wordpress.com/

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Uma resposta para O Movimento da Carne Santa no Adventismo – Parte 01

  1. Antonio P. Gras disse:

    O tema é muito oportuno, porem, muito mal elaborado! Porque não colocaram as referencias dos livros que contem estas profecias ou este comentário?! Quem garante que, tudo isto, é verdade?!
    Antonio P. Gras

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