Ellen White como Evangelista

O local era uma estação de trem. Era uma tarde de domingo, em 1884, quando Ellen White e um grupo de pessoas estavam na estação de trem de Mojave Desert. O grupo estivera participando da assembleia mundial da Igreja Adventista. Dois vagões de trem foram fretados para transportar os participantes de volta a Oakland, Califórnia, onde, na época, estava localizada a sede da Igreja Adventista na Costa Oeste dos Estados Unidos. Como teria que esperar na estação por várias horas, o grupo teve a ideia de realizar uma reunião evangelística durante esse tempo.

O plano era simples: eles se espalhariam pela cidade para fazer uma rápida divulgação. Os funcionários da estação de trem atenderam ao convite. E também o editor do jornal da cidade. Muitas pessoas de toda a cidade foram ouvir a pregação daquela senhora – Ellen White. Qual foi o tema de seu discurso? Ela se baseou no texto de Mateus 6:25-34, onde Jesus fala sobre as preocupações.1

Essa reunião improvisada não era incomum para Ellen White. Durante toda a vida, ela falou sobre Jesus em diversas circunstâncias incomuns. Embora ela seja mais conhecida por seu ministério profético e pelos livros que escreveu, sua paixão pelo evangelismo era evidente em tudo o que fazia. Essa era uma de suas qualidades mais marcantes, que começou em sua conversão e permaneceu por toda a vida.

A Conversão de Ellen White

Quando Ellen tinha apenas 9 anos de idade, uma colega de classe atirou uma pedra em seu rosto, dando início a uma crise existencial. Ela caiu inconsciente. Após recobrar consciência, ela se convenceu de que estava morrendo. Tempos depois, escreveu: “Eu queria ser cristã e orei pedindo perdão pelos meus pecados da melhor maneira que podia.”2 Estando no leito de morte, e tão jovem, seria fácil entregar-se a Cristo. Segundo Merlin Burt, diretor do Centro de Pesquisas Adventistas, uma eventual entrega não seria “dificultada por questões sobre como viveria para Jesus e que decisões tomaria durante a vida inteira. Quando ela descobriu que não morreria, foi levada à próxima etapa em seu processo de conversão”.3

Mais tarde, Ellen teve dois sonhos, que a levaram novamente a refletir sobre a vida espiritual.4 Foi depois do segundo sonho que ela confidenciou seu medo à mãe, que convidou Levi Stockman, jovem ministro metodista, para visitar a filha. Durante o pouco tempo que passou com ele, Ellen obteve “mais conhecimento sobre o assunto do amor de Deus e de Sua compassiva ternura, do que de todos os sermões e exortações que já ouvira”.5

Posteriormente, Ellen White tornou-se uma evangelista apaixonada. Ela sentiu a “segurança da presença do Salvador”, o que a capacitou a “louvar a Deus” até mesmo “pelos infortúnios” que tanto a haviam traumatizado.6 Tímida por natureza, ela ousou orar em público pela primeira vez. Seguindo uma prática comum entre os norte-americanos durante o Segundo Grande Reavivamento (que ocorreu entre 1790 e a década de 1840), Ellen contou publicamente seu testemunho e expressou o desejo de compartilhar a fé com outros. Ela começou a organizar reuniões com amigas e orava com elas até que, finalmente, “todas se converteram a Deus”.7

Evangelista Pessoal

Embora Ellen White tenha sido, sem dúvida, um dos evangelistas mais proeminente na Igreja Adventista durante sua época, ela nunca perdeu de vista a importância de falar de Jesus por meio do contato pessoal e individual. No verão de 1853, Tiago e Ellen White viajaram pelas florestas do estado do Michigan. O cocheiro supostamente conhecia bem o caminho, mas se perdeu. O dia estava muito quente,
e a sra. White desmaiou duas vezes no percurso. Eles viajaram por terrenos acidentados, “por cima de toras e árvores derribadas”. Ellen White estava com tanta sede, que sentia como se tivesse morrendo numa viagem pelo deserto. “Riachos com água fresca”, disse ela mais tarde, “pareciam estar à minha frente; mas, à medida que passávamos por eles, via que era ilusão.”

Aquilo que deveria ser um passeio matinal de 25 quilômetros se tornou um evento que durou o dia inteiro. Quando finalmente avistaram uma clareira, chegaram a uma cabana feita com toras de madeira. Os moradores os cumprimentaram, ofereceram algo para comer e beber, e rapidamente todos se tornaram amigos. Ellen White falou com uma mulher sobre temas religiosos, inclusive sobre o amor de Deus, o sábado e o breve retorno de Jesus. Ellen entregou a ela algum material religioso, inclusive um exemplar da Review and Herald (na época, Revista Adventista dos EUA).

Vinte e dois anos mais tarde, Ellen White encontrou essa mesma senhora em uma reunião campal no Michigan. “Indagou se eu não me lembrava de haver feito uma visita em uma casa de toras de madeira, na floresta. […] Ela declarou haver emprestado aquele livro [Christian Experience and Views, atualmente disponível em Primeiros Escritos, p. 11-83] aos vizinhos, ao se estabelecerem novas famílias ao seu redor, até que o mesmo já se achava todo gasto. […] Ela disse que quando eu a visitara, falara de Jesus e das belezas do Céu, e que as palavras haviam sido proferidas com tanto fervor, que ela ficara encantada, e nunca as esquecera.” Ao refletir sobre esse fato, Ellen White compreendeu, depois de tantos anos, que aquele trajeto “nos havia parecido muito misterioso, mas ali encontramos um bom grupo, agora crentes na verdade”.8

Evangelista em Sua Própria Família

Alguém pode pensar que Ellen White sempre obteve sucesso em seus esforços evangelísticos. Mas, entre as pessoas que teve maior dificuldade para evangelizar, estavam seus parentes. Durante o verão de 1872, Tiago e Ellen White visitaram as montanhas do Colorado. Vários parentes estavam com eles, inclusive a sobrinha Mary, filha da irmã mais velha de Ellen. Em seu diário, Ellen White escreveu sobre as caminhadas relaxantes pela natureza. Em uma dessas caminhadas o grupo sentou-se sob uma árvore enquanto “tia Ellen” lia o livro Spiritual Gifts (Dons Espirituais). Ellen White relata como Mary ficou “profundamente interessada” nas coisas de Deus. Ao término dos momentos em que estiveram juntos, houve um período de oração, durante o qual Mary orou.

A sra. White estava tão preocupada com o bem-estar espiritual da sobrinha que não apenas permitiu que ela permanecesse com eles, mas deu-lhe até um emprego como assistente literária (secretária) para que a auxiliasse em seus escritos. Cinco anos depois daquele encontro nas montanhas, ela escreveu uma carta pedindo a Mary que entregasse o coração a Cristo. “Não quero pressioná-la”, escreveu tia Ellen, “não quero impor-lhe nossa fé ou forçá-la a crer. Nenhum homem ou mulher terá a vida eterna a menos que a escolha por si mesmo. […] Espero que você não diga o mesmo que sua mãe sobre o sábado: que ‘arriscaria’ transgredi-lo. […] Ainda tenho esperança de que ela aceitará a verdade. […] Escrevo com amor, e escrevo porque não me atrevo a deixar de fazê-lo.” Infelizmente, não sabemos como Mary respondeu à carta da tia, e não há qualquer evidência de que algum dia ela aceitou a verdade bíblica do sábado.9

Conclusão

Ellen White foi um dos evangelistas mais influentes da história da Igreja Adventista do Sétimo Dia. É verdade que seu ministério profético foi importante e continua a exercer uma grande influência entre os adventistas. Seu ministério era profundamente firmado em um relacionamento pessoal com Jesus Cristo. Sua paixão era falar de Jesus às pessoas. Inicialmente, ela teve resistência para falar em público, mas o grande desejo de falar de Jesus aos outros superou a
insegurança. Tanto em público como em particular, Ellen White foi eficaz como evangelista porque levava Jesus àqueles que estavam ao seu redor.

1 Esse incidente está relatado em James R. Nix, Advent Preaching (Silver Spring, MD: North American Division Office of Education, 1989). O conteúdo do discurso de Ellen White encontra-se em Review and Herald, 24 de fevereiro de 1885.

2 Ellen G. White, Spiritual Gifts (Battle Creek, MI: Seventh-day Adventist Publishing Association, 1860), v. 2, p. 9.

3 Merlin D. Burt, notas de sala de aula, Andrews University, GSEM 534 (maio de 1998), p. 3; idem, “Ellen G. Harmon’s Three-Step Conversion Between 1836 and 1843, and the Harmon Family Methodist Experience”, pesquisa não publicada, Andrews University, março de 1998.

4 Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, v. 1, p. 23-29.

5 Ibidem, p. 30.

6 Ellen G. White, Life Sketches of Ellen G. White (Mountain View, CA: Pacific Press, 1943), p. 39.

7 ______, Vida e Ensinos, p. 33.

8 ______, Evangelismo, p. 448, 449; veja Arthur L. White, Ellen G. White: The Human Interest Story (Washington, DC: Review and Herald, 1972), p. 69-71.

9 Ellen G. White, diário, 27 de julho de 1872; idem, carta 6, 1877; White, Ellen G. White, p. 68, 69.

Artigo escrito por Michael W. Campbell, Ph.D., pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia em Montrose e Gunnison, no oeste do Colorado, EUA. Publicado na Revista Adventist World de Ago/2010.

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3 respostas para Ellen White como Evangelista

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  2. LUZIA FERNANDES LOPES disse:

    ELLEN FOI UMA MULHER DE FIBRA AMOU A DEUS E SEU FILHO DJESUS CRISTO, TRABALHOU MUITO A SERVIÇO DE DEUS, ERA UMA MULHER SIMPLES, MAS NA HORA DE PREGAR O EVANGELHO ERA MUITO RESISTENTE E PODIA FALAR VÁRIAS HORAS DA PALAVRA DO PAI E DO FILHO E DO ESPIRITO SANTO, DEIXOU-NOS VARIOS LIVROS SOBRE DEUS TENHO VÁRIOS ONDE LEIO E VEJO O QUANTO ELA AMAVA A PALAVRA DE DEUS E ERA INCANSÁVEL EM FALAR O QUE BUSCAVAM OS POVOS EM BUSCA DA PALAVRA.

  3. De fato Edivaldo o assunto merece ser visto num contexto, se não escatológico, pelo menos secular.

    O Reino unido e o mundo em geral, admite a religião como um fator sociológico. Destarte o domingo é um dia de atividades socialmente convenientes: família, lazer, etc. Percebe-se que em nenhum momento os cléricos citam motivo espiritual, muito menos a Bíblia.
    Na perspectiva bíblica, religião é assunto espiritual. Para a Bíblia o dia de guarda tem como subproduto a família e, até atividades sociais, entretanto seu grande e precípuo motivo é a adoração a Deus por Seu ato criador. Por isso não se transige com qualquer circunstância ou conveniência..

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