O Cristão e a Política

Por Bert B. Beach

Desde o nascimento da igreja cristã, estas questões têm sido debatidas vez após vez: Qual é o papel do cristão na política? Pode um membro ou a própria igreja envolver-se em política? Como deviam se relacionar com o governo e com as autoridades políticas?

Alguns adventistas do sétimo dia acham que a igreja não desempenha nenhum papel político, e o cristão individual, no máximo, uma parte minúscula. Esta opinião funda-se sobre o conceito de que o reino de Cristo não é deste mundo. Outros adventistas insistem que tanto indivíduos como a igreja têm responsabilidades sociopolíticas incontestáveis para melhorar as condições de vida. Alguns cristãos vão mais longe e pretendem que a tarefa principal do cristianismo é trabalhar para criar uma ordem política cristã que resulte no estabelecimento do reino de Deus na Terra. Entre uma e outra, há todo uma gama de opiniões.

O exemplo de Cristo

Jesus raramente mencionou o tipo de sociedade política à qual Seus discípulos deviam aspirar. Ele não pretendeu ser um reformador sociopolítico. Ele não enunciou nenhuma plataforma política. As tentações no deserto tinham uma dimensão claramente política e Ele as resistiu. Embora Ele tivesse mais de uma oportunidade para apoderar-Se do governo da sociedade por uma espécie de golpe de estado (ex.: o alimentar a multidão e a entrada triunfal em Jerusalém), Ele não escolheu esta opção.

Ao mesmo tempo, os ensinos de Jesus não podiam deixar de ter uma influência sociopolítica ao serem observados pela comunidade cristã. Ele ofereceu boas novas aos pobres, liberdade para os oprimidos e vida abundante (João 10:10). Portanto, os adventistas, seguindo o exemplo de cristãos através dos séculos, precisam reconhecer sua responsabilidade social. Os pioneiros adventistas pregavam não só o evangelho de salvação individual, mas também se preocupavam com alcoólatras, escravos, mulheres oprimidas e as necessidades educacionais de crianças e jovens.

A base bíblica de responsabilidade sociopolítica

A responsabilidade sociopolítica cristã baseia-se sobre dois fundamentos bíblicos. Primeiro, a doutrina da Criação. Deus criou o Universo e nos designou como os mordomos deste mundo. Mordomia implica tanto em responsabilidade como prestação de contas pelo domínio sobre o qual tem jurisdição.

Segundo, a doutrina do homem. Os seres humanos são criados à imagem de Deus. Os parâmetros da responsabilidade humana de servir jazem dentro deste conceito bíblico da natureza humana. A visão cristã é que homens e mulheres não são uma espuma sobre o mar da vida, mas pessoas com um papel responsável a desempenhar e com um futuro promissor. O potencial humano confere propósito, direção e otimismo a cristãos a serviço de outros num contexto comunitário.

Assim, o cristianismo não é uma religião de individualismo isolado ou de introversão; é uma religião de comunidade. Os dons e as virtudes cristãs têm implicações sociais. Devoção a Jesus Cristo significa devoção a todos os filhos de Deus, e devoção gera responsabilidade pelo bem-estar de outros.

O dilema de uma dupla cidadania

Cristãos sinceros confrontam o dilema de uma dupla cidadania. De um lado eles pertencem ao reino de Deus, e do outro, a sua terra natal. São parte da “nova humanidade” e vivem no meio da “velha humanidade”. Há aqui um conflito inerente? Precisa a juventude adventista do sétimo dia escolher uma cidadania e renunciar à outra? Não há dúvida de que ocasionalmente possa haver conflito quando as exigências ou deveres de uma cidadania colidem com os da outra. Em tais casos as Escrituras são claras: “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29).

Não obstante, o reino de Deus não se encontra isolado deste mundo; “está entre vós” (Lucas 17:21). Em outras palavras, o reino de Deus é uma esfera, um comprometimento, uma atitude e um modo de vida e pensar que permeia a toda nossa existência e que dá um sentido especial à cidadania nacional. É a soberania de Deus invadindo o viver humano.

Nada fazer é ação política

A organização política da sociedade é a provisão divina para a humanidade caída. Deus não pede que as pessoas corretas se distanciem do processo político de governo e deixem o controle sociopolítico e econômico nas mãos dos “malfeitores”. Os cristãos devem ser o sal e a luz do mundo social, e portanto não podem simplesmente se afastar do processo político. Com efeito, tal abdicação é em si mesma uma ação política que abre o caminho para o controle político para aqueles que não apóiam valores cristãos. “Nada fazer” é uma receita certa para o pecado ficar senhor da situação. Os adventistas têm tanto o direito como o dever de usar a cidadania terrestre para manter a igreja livre para cumprir seu mandato divino e ajudar como indivíduos a atender às necessidades sociais gritantes.

Deveres de cidadania política

Os adventistas do sétimo dia confrontam pelo menos quatro deveres da cidadania política.

Primeiro, o dever de orar a favor dos que exercem autoridade governamental. Precisamos orar por auxílio divino para resolver alguns dos problemas sociopolíticos que afetam negativamente a vida humana e a proclamação do evangelho. As orações e súplicas dos fiéis ascendem muito mais alto do que as declarações e ações políticas que enchem montanhas de papel reciclável.

Segundo, o dever de votar e de fazer petições às autoridades no poder. Os adventistas devem votar mesmo quando a escolha seja entre o menor de dois males. Em conexão com isto, a obtenção do título de eleitor é o primeiro passo.

Terceiro, o dever de educar-se e informar-se. Os adventistas, não menos que outros cidadãos, devem instruir-se continuamente quanto a questões que afetam a vida presente e futura. Ignorância política não aumenta a felicidade espiritual.

Quarto, o dever de candidatar-se e ocupar cargos públicos. Os adventistas têm este direito constitucional. Há também designação para cargos governamentais que não envolvem campanha eleitoral. Ellen White afirma que não há nada errado na aspiração de “sentar em conselhos deliberativos e legislativos e ajudar votar leis para a nação”.1 Contudo, ela aconselha que ministros e professores empregados pela igreja se abstenham de atividades políticas partidárias.2 A razão que ela dá é bem clara: política partidária pode criar divisões. Um pastor poderia facilmente dividir uma congregação e enfraquecer grandemente sua habilidade de servir como pastor de todo o rebanho, tomando partido.

Perigo de envolvimento político

Tendo salientado a responsabilidade e privilégios da cidadania, torna-se necessário advertir contra o perigo de envolvimento político tanto do indivíduo como da igreja. Os adventistas, como outros cristãos, podem ser enganados por César. Sucesso na política envolve compromisso, exaltação própria, ocultar fraquezas e desempenhar papéis partidários. Às vezes torna-se necessário aceitar expedientes que não se enquadram com as melhores convicções morais. A política é um patrão exigente e absorvente. Os políticos cristãos caminham sobre uma corda bamba. Devem evitar contaminar-se com a qualidade irônica e absorvente do ativismo político que pode rebaixar seus esforços a um nível em que Deus parece não envolver-Se nos assuntos humanos.

Há um perigo crescente de as igrejas se envolverem em política. Isto leva à interpretação da fé e do evangelho cristãos em termos de valores políticos. O interesse em muitas igrejas parece ter-se transferido da moralidade individual à moralidade social. O resultado é que, em certos segmentos da sociedade eclesiástica, idéias seculares começam a moldar os valores cristãos de modo a haver pouca diferença entre o secular e o sagrado. É triste constatar que amiúde as atitudes de cristãos são as mesmas da sociedade em geral.

Envolvimento circunspecto da igreja

O que acabamos de dizer aponta à necessidade de um envolvimento político judicioso. Uma igreja mundial, com milhares de instituições, dez milhões de membros adultos e muitos interessados, não pode evitar contato com o Estado e o envolvimento político. Não somente pessoas, mas também organizações eclesiásticas, têm direitos e responsabilidades. A igreja tem o direito de intervir no caso de legislação ou ações regulatórias, tanto positivas como negativas, que afetem a missão da igreja.

A igreja não deve jamais (e jamais é um termo forte) identificar-se com um partido político particular ou com um sistema político. Uma identificação tal pode de início trazer um privilégio temporário rápido, mas inevitavelmente arrastará a igreja pela rampa descendente que leva a uma paralisia de sua ação evangelística e profética. Em suma, “a igreja deve ser a igreja”, e não uma agência social. Sua iniciativa mais prometedora para mudar a sociedade é transformar indivíduos, gente. Os adventistas do sétimo dia cumprem, numa estrada de mão dupla a missão de Deus no mundo: evangelismo e serviço.

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Bert B. Beach (Ph.D., Universidade de Paris, Sorbonne) é o diretor de relações entre igrejas da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia. Seu endereço: 12501 Old Columbia Pike, Silver Spring, MD 20904-6600, E.U.A.

Notas e referências

1. Ellen G. White, Mensagens aos Jovens, pág. 36.

2. Ellen G. White, Obreiros Evangélicos, págs. 391-395

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4 respostas para O Cristão e a Política

  1. Chandler disse:

    Mas, e quando os candidatos na política, como exemplo, candidatos vem fazer o palanque eleitoreiro no culto de sábado de manhã na igreja?

    Entre outras coisas, os anúncios tem que ser cortados para não atrapalhar o culto, mas a troca de favores para a construção da nova igreja e o voto ao candidato, isso é normal?

  2. Seventh Day disse:

    Chandler,

    Esta prática de se angariar votos nos cultos de sábado ou em qualquer outro dia de culto é expressamente proibida na igreja adventista do sétimo dia.

    Com relação a se votar em um candidato pela troca de favores, como a construção de uma igreja por exemplo, também não é prática aceitável. O que tem a ver a eleição da pessoa com a construção de uma igreja? Acaso a pessoa iria desviar verba pública para esse fim?

    O voto deve ser dado a quem de fato o eleitor acredita que fará um bom mandato e tem competência para isso, muitas vezes só o fato da pessoa ser da igreja x ou y, não capacita a mesma para assumir um mandato político.

  3. Paula Ribeiro disse:

    Amados: A paz do Senhor Jesus seja Convosco! Amém?
    As tentações sofridas por Jesus no deserto tinham uma dimensão claramente política e Ele as resistiu. Embora Ele tivesse mais de uma oportunidade para aceitar todas as oportunidades oferecidas pelo diabo. A palavra de Deus é clara. Deus revela a si próprio. Logo, não devemos nos deixar seduzir pelo poder que esta nas mãos do diabo. Ficou claro, nada vem de graça, tudo tem um preço. Devemos lutar pelos nossos direitos com caráter e dignidade ao invés de darmos o filé de mãos beijada para o diabo e comer as migalhas que caem. Deus quer o melhor para os seus escolhidos. A mão do Senhor esta espichada. qual o filho que pedindo pão o pai lhe daria uma pedra ou uma serpente? Tudo é possível ao que crê. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece. Um grande abraço. Paula

  4. Agamemnon Vinicius Pellegrini disse:

    Acredito que não deveriamos ser candidatos nem mesmo nos filiar a partidos politicos. Sendo que nunca foi projeto de DEUS e sim de homens ter a instituição de reinos ou governantes terrestre

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