Raio X da Violência

Como e por que algumas pessoas adotam comportamento violento.

Quem não tem controle de si mesmo usa a violência como recurso para controlar os outros. Parece que, quanto menor é a capacidade de dominar os próprios impulsos e desejos, maior é o esforço para tentar administrar a vida alheia.

Nos relacionamentos, a violência tem a função de manter uma distância suportável, tanto no que diz respeito à aproximação quanto ao afastamento. Porém, o resultado gera mais violência. Quem recorre a violência perde a razão, o poder de comunicação e fracassa na argumentação verbal, os pilares dos relacionamentos bem-sucedidos. O agressor se sente incompreendido e recorre novamente à força física para mostrar seu ponto de vista e fazer valer a sua vontade. Ele descobre que a força bruta pode substituir as palavras e levar a seus objetivos com maior rapidez.

Os resultados imediatos obtidos com um ato violento produzem sensações de poder – o clássico “quem manda aqui sou eu”. Contudo, o tempo transforma essa impressão de superioridade em decepção, abandono e solidão. Acolheita final é o fracasso no relacionamento. Com uma sucessão de fracassos, o agressor passa a desacreditar de si mesmo e perder a auto-estima. Então, recorre mais uma vez à violência para se impor.

Ciclo Cruel

A violência começa com aameaça de destruir ou fazer mal para o outro (nem sempre com a intenção de levar a situação até as últimas consequências). Feita a ameaça, o agressor diminui e desumaniza a vítima, provocando medo e vergonha. Assim, fica fácil abusar dela e violentá-la a seu bel-prazer.

Não é de estranhar que as vítimas da violência, crianças ou adultos, tornam-se enfraquecidas em suas decisões, traumatizadas psicologicamente. Elas têm seu senso de identidade pessoal arruinado e sua vontade massacrada, e ent~ram num estado de submissão desmoralizada. Algumas das vítimas acabam também reagindo a esse abuso com profunda violência, dando sequência a um ciclo cruel.

Mas por que algumas pessoas são violentas? Acredita-se que a responsabilidadeesteja no processo de educação e socialização da criança. Além de falhas nas relações entre pais e filhos, há pessoas capazes de regular sua ação violenta e outras não. Os que conseguem reter os impulsos violentos aprenderam isso durante a vida e adiquiriram recursos que outros não acumularam. São os recursos cognitivos ou a capacidadede raciocinar em termos de certo e errado. Eles moldaram uma visão de mundo sócio-moral, têm capacidade de se identificar com o sentimento dos outros e uma percepção adequada do contexto do comportamento. Isso não significa ausência de raiva, falta de vontade de agredir ou até mesmo a fantasia da violência. Significa não concretizar a violência.

A capacidade de regular, controlar e administrar o próprio comportamento é essencial para um relacionamento social adequado e satisfatório. Em geral, todos temos uma visão do que é justo ou injusto, do certo e do errado em cada situação. é uma visão muitas vezes determinada pela qualidade das interações sociais, pelo equilíbrio ou desequilíbrio advindo da qualidade das interações.

Aí, entram dois fatores importantes: a experiência e a capacidade cognitiva ou de raciocínio. Se o ambiente em que crescemos não for estimulador em termos intelectuais, vamos nos ressentir na limitação da experiência. Da mesma forma, se não for desafiador em termos de conduta moral, o raciocínio moral será limitado e acanhado. Necessitaremos de uma coordenação entre nossa perspectiva individualista e a visão de outra pessoa.

Amadurecimento Limitado

Há vários estudos importantes sobre a relação entre a falta de raciocínio moral e a violência. Ficaremos apenas com um deles: L.Kohlberg. Segundo esse estudioso, as pessoas passam por vários estágios para o amadurecimento moral, classificadas em três níveis de amadurescimento: pré-convencional, convencional e pós-convencional.

O primeiro estágio, o pré-convencional, abrange crianças com menos de nove anos, muitos adolescentes e muitos adultos de comportamento criminal. São pessoas cuja compreensão das regras sociais élimitada. Elas observam as regras movidas por medo da punição ou por troca de interesses, não alcançam uma fase convencional capaz de compreender, aceitar e seguir as regras socias. Não internalizam as regras de ação moral. Para essas pessoas, é muito difícil perceber que as regras são importantes para manter boas relações interpessoais, conservar o sistema social e orientar as relações com as autoridades.

É nesse nível de amadurecimento que se fixa uma pessoa violenta. Sua perspectiva social gira em torno apenas de si mesma. Seus alvos desconhecem o social na hora de avaliar suas ações. Apenas sua própria justiça é o que conta. O mundo se move por causa de seus interesses e conveniêncais. Ela é incapaz de perceber o mal que causa.

Há Esperança

Conforme exposto, parece até que a pessoa violenta não tem esperança de melhorar. Mas não podemos esquecer que a violência é uma escolha. Há outras opções. é uma questão de parar para pensar, decidir escolher uma ação mais apropriada, mais positiva, percebendo que a violência frustra quem a usa e fere quem sofre sua ação.

Os que chegam a esse entendimento são capazes de viver pelos princípios quando as regras conflitam. O indivíduo obedece às obrigações para manter o próprio respeito e o respeito pelo outro. O grau de compreensão do juízo moral vai do individual para o social, do egoísmo para o altruísmo, do egocentrismo para a consideração pelo outro. Vai do interesse pessoal para o social.

Enquanto estiver vivo, o ser humano pode mudar e aprender novas formas de agir.

Belisário Marques é doutor em Psicologia.

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Sobre Blog Sétimo Dia

“SOLO CHRISTO”, “SOLA GRATIA”, “SOLA FIDE”, “SOLA SCRIPTURA” (salvação somente em Cristo, somente devido à graça de Deus, somente pela instrumentalidade da fé, somente com base na Escritura)
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